Miséria à espreita




O crescimento econômico descolado de planos na área social, com profundidade e alcance amplo, traz sérios riscos para a estabilidade de uma sociedade carente de atendimento em suas necessidades básicas, pois abre espaço para o aumento da miséria.

Esta tese vem sendo defendida com insistência por sociólogos, cientistas e demais estudiosos da problemática social, mas não tem encontrado boa ressonância junto ao poder público. Daí nossa disposição de manter o tema em permanente debate, ocasionalmente neste espaço e com assiduidade no bojo de nosso noticiário.

Não é que a equação do problema tenha algo de complicado, muito pelo contrário. É de fácil compreensão. Ele apenas exige que cada vez mais pessoas com responsabilidade dele se ocupem, para que as graves consequências resultantes da desatenção e do desinteresse das autoridades possam ser enfrentadas com conhecimento de causa.

Os riscos de aumento das desigualdades sociais em função de um crescimento econômico desordenado não são sequer desconhecidos dos historiadores. Elas vêm marcando presença forte, inclusive, no Espírito Santo, nos diversos ciclos de desenvolvimento vividos pelo Estado nas últimas décadas.

Estão aí as periferias de nossas cidades a expor feridas no tecido social que jamais cicatrizam, pela continuidade dos problemas que as originaram. Sim, porque a miséria não grita, não protesta, não se mobiliza numa sociedade surda e cega pela volúpia de um tipo de crescimento excludente das camadas mais pobres da população.

São as obras de expansão dos chamados grandes projetos que atiram na marginalidade milhares de cidadãos atraídos por promessas de empregos que em verdade não passam de subempregos, de ocupação breve e transitória, um trabalho duro e em muitos casos perigoso, mas aviltado por salários baixíssimos e condições precárias de sobrevivência.

Este é um fato evidente, cristalinamente exposto na vida das nossas cidades. Entretanto, o que tem feito o poder público para evitar que tão triste história se repita com o passar do tempo? Nada, absolutamente nada.

É o que reclama a cientista política Marta Zorzal e Silva em mais um de seus pronunciamentos contra o que qualifica como falta de limite da lógica capitalista, matéria publicada por Século Diário em sua edição dessa segunda-feira (19). "O limite da lógica capitalista - ela pondera - deve ser dado pela sociedade civil e pelo governo que a representa".

Perfeita a colocação. E mais perfeita é sua explicação sobre o que ocorre quando se inicia um processo de intenso crescimento sem que paralelamente se criem políticas públicas destinadas a amenizar, ou pelo menos reduzir, o surgimento de graves mazelas sociais.

Como graves mazelas sociais, leiam-se bolsões de miséria. Que não surgem por acaso, mas porque - esclarece Marta Zorzal - a propaganda, que se alastra assim que uma região se desenvolve acima da média nacional, faz com que milhares de pessoas acorram àquela região em busca de uma oportunidade para melhorar de vida.

No caso capixaba, lembra Marta, o crescimento tem a particularidade de se fundamentar na produção de grandes indústrias. Esse tipo de projeto cria muitas vagas de emprego nas fases de implantação e expansão. Essas vagas são direcionadas a trabalhadores sem qualificação, que após a conclusão da obra ficam sem trabalho e acabam empurrados para periferias sem infra-estrutura básica e condições mínimas para a inclusão destes trabalhadores e de suas famílias no mercado, o que impede seu acesso aos bens de consumo e à tecnologia. Eles acabam engrossando o terceiro setor e passam a atuar no mercado informal, quando não na marginalidade.

Precisamos ser mais claros? Cremos que não, pois o aumento da miséria está hoje, novamente, à espreita em nossa região metropolitana. Só não o vê quem não quer.