Vitória (ES), edição de 21 de junho de 2006
Vila Velha e Cariacica já estão se preparando
para adotar medidas contra expansão da miséria



Anderson Cacilhas


Dois dos municípios mais afetados na Grande Vitória pela expansão da miséria já estão preocupados com os efeitos que o novo ciclo de desenvolvimento econômico pode trazer para as periferias da metrópole. De olho nos recursos que o petróleo trará, as prefeituras de Vila Velha e Cariacica não ignoram os problemas que vêm junto com os royalties e desenham ações preventivas.

Admitem ser difícil conter a expansão da miséria, sempre comum nestes momentos, mas anunciam medidas de inclusão social, organização territorial, rigor na fiscalização e cobrança de contrapartidas das grandes indústrias capixabas. Isso se deve ao anúncio de investimentos da ordem de R$ 15 bilhões que a Petrobras pretende fazer no Estado nos próximos anos.

A principal preocupação, tanto em Vila Velha quanto em Cariacica, são as ocupações irregulares, que já demonstraram toda a sua capacidade de exercer pressão sobre os municípios na década de 70, quando grandes indústrias como Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) se instalaram no complexo de Tubarão, em Vitória, fazendo explodir as invasões e os bolsões de miséria. Migrantes do interior capixaba, do norte de Minas Gerais e Sul da Bahia foram atraídos pela expansão econômica, o que pode ocorrer novamente.

Essa pressão pode voltar a se intensificar, já que a instalação de novos projetos e a expansão dos já existentes demandam mão-de-obra desqualificada, principalmente na área da construção civil. Essas vagas são temporárias e não se sustentam após a instalação definitiva da indústria. Os trabalhadores, sem emprego, são então arrastados para as periferias e não conseguem mas se inserir no mercado de trabalho, engrossando a pressão social na região metropolitana.

Vila Velha sofre até hoje com os problemas iniciados na década de 70. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Antônio Brito, considera que seu município foi o que mais sofreu com esse tipo de ocupações. Agora o trabalho vai no sentido de dotar as áreas já consolidadas, surgidas no primeiro ciclo industrial, como a região de Terra Vermelha, com infra-estrutura para que novas construções sejam autorizadas. Estes bairros contam com espaço suficiente para abrigar o novo fluxo migratório que se desenha para os próximos anos e poderiam evitar o surgimento de novas áreas de densa população sem as mínimas condições de moradia.

Ele acredita que o poder público tem que atuar como regulador e por isso considera fundamental a exigência de contrapartidas sociais das indústrias. "Isso vai virar lei em Vila Velha. O PDM (Plano Diretor Municipal) está em discussão com a sociedade e vai definir isso. Não se pode apenas induzir a vinda de empresas sem ações compensatórias", disse o secretário.

O secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Cariacica, Pedro Rigo, também alerta para a importância de impedir o surgimento de novas ocupações irregulares. O município vai continuar intensificando a fiscalização para evitar o surgimento deste problema.

A ferrovia Norte-Sul é outra preocupação da prefeitura, já que o modal atravessa boa parte do município e pode aumentar a atração de novos habitantes para o município. Por isso já está sendo elaborado o PDM e o Plano Diretor Econômico (PDE), traçando diretrizes para o desenvolvimento econômico do município e ordenando a evolução imobiliária.

Como Vila Velha e Cariacica demoram mais a tomar providências para se organizar, a organização realizada por Vitória na década de 80 acabou por empurrar parte dos moradores das periferias da Capital para periferias mais longínquas em outros municípios da Grande Vitória. Foi o caso da Grande São Pedro, onde a maioria dos moradores não são os originais, da época da invasão do local.

Qualificação

A qualificação é ponto comum na busca pela inclusão das pessoas que estão à margem do processo econômico. Como não é possível impedir que o fluxo migratório se dirija à Grande Vitória, os municípios ensaiam, ainda que timidamente, programas de qualificação.

Em Cariacica, o Pró-Jovem, programa em parceria com o governo federal, vai recrutar 1.000 jovens em 2006 que receberão bolsas no valor de R$ 100,00 para que cursem o Ensino Médio.

Vila Velha vai mais longe e coloca em funcionamento dois programas de inclusão digital: um móvel, que vai aos bairros para atender às comunidades, e outro que funciona nas escolas que possuem laboratórios de informática. Além disso, cursos voltados para a construção civil também são ministrados. Todos juntos já formaram cerca de 5,5 mil pessoas. Existe ainda um programa de acompanhamento chamado Onde Está Você, que serve para a prefeitura acompanhar os resultados do trabalho desenvolvido.

Apesar das iniciativas, os programas têm sempre caráter municipal e não são realizados de forma conjunta pelos municípios metropolitanos, mesmo que os problemas enfrentados sejam idênticos, demonstrando a dificuldade que a Grande Vitória tem para sair do papel.


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    (reportagem publicada em 19/06/2006)