A gente só entende de verdade a
Lei de Moore quando se vê procurando emulador para rodar programas que, tempo atrás, demandavam um upgrade geral da máquina.
Meu primeiro computador foi um
MSX Hotbit, ganho em algum Natal distante. A CPU era um tecladão que ligava na TV, usando cabo RCA e um switch igual ao dos consoles 8 bits.
Esse setup, que hoje parece absurdo, consolidava minha idéia do que vinha a ser um computador: um videogame complicado, que usa disquetes no lugar de cartuchos, e demora mais tempo para ligar. Eu, moleque que nunca tive nem um Atari 5200, me sentia vingado da vizinhança, com seus Famicons pirateados, seus Master Systems da Tectoy.
Era com certeza o garoto que mais possuía joguinhos no bairro. Cabiam dezenas em cada disco. Comprava todos de um rapaz da Glória, que além de piratear sucessos da
Konami , também vendia periféricos. Foi com ele que eu havia adquirido meu drive 5"1/4, um trambolho enorme, que se ligava ao micro pelo soquete de cartucho - espécie de universal serial bus da época, pelo qual entravam todas as expansões.
Com ele também eu arranjei um megaram, que, como o próprio nome diz, era um cartucho de memória RAM. Os incríveis 64 kb dobravam a capacidade da minha máquina, e me permitiam jogar
King's Valley 2 e
Penguin Adventure , títulos que tiveram tanta importância na minha formação moral e cívica quanto Reinações de Narizinho.
Os jogos não vinham com manual, e não havia nenhuma revista de dicas para me dar suporte. Eu tinha que desbravar tudo sozinho. Mesmo os controles eram um mistério: nunca sabia exatamente qual botão do teclado fazia o personagem ir para um lado ou para o outro. Meramente jogar demandava uma senhora exploração da interface - quanto mais jogar direito. E me lembro de ter enchido páginas e páginas com a localização exata de cada lojinha de Penguin Adventure, a função de cada item, os macetes das fases de bônus.
Esse jogo talvez mereça uma coluna exclusiva, ou pelo menos um capítulo no meu livro de memórias. É uma pena que Tux, o obeso ícone do Linux, tenha suplantado Pentarou, o astro da Konami, como arquétipo do pingüim informático. Mas eu ainda tenho esperanças de ver a softhouse fazer com Penguin Adventure o que fez com Metal Gear. Enquanto isso não acontece, perco tardes saudosistas com um
openMSX .
Eis que dia desses descubro o
Dosbox , um emulador de DOS, a única solução que eu e demais pessoas de bom gosto temos para jogar as pérolas esquecidas que a gente encontra no Home of the
Underdogs.
Só me assusta pensar que os moleques que devem estar programando o Dosbox nem usaram o DOS de verdade. E me assusta mais ainda imaginar que o atual desafio deles é arranjar um jeito de rodar o Windows 3.11 no emulador.
Entre outras coisas, Moore me dá consciência do que é envelhecer.
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