Vitória (ES), edição de 30 de janeiro de 2006    
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Memórias e Novas



Oscar Vasconcelos*


Vocês sabem, tenho uma certa fixação por datas, e enquanto batuco essas letrinhas nesse domingo, pós vitória sofrida da seleção, me ocorreu a lembrança de que mais um ano se passou do fatídico último show da Legião Urbana em sua cidade natal. Há exatos 18 anos, escrevia-se uma das páginas mais tristes e confusas na história da banda e da capital do país. Esperava-se a consagração no "retorno para casa" após mais de um ano e meio sem aparecer por lá. De fato a cidade inteira se dirigiu ao estádio Mané Garrincha. Com e sem ingresso, todos entravam, não havia controle. Brasília já era um lugar esquisito, e durante a apresentação da Legião naquele dia, tudo começou a sair dos trilhos de uma maneira tão contundente que nem o "messianismo" associado a Renato poderia fazer alguma diferença. Aliás, as coisas começaram a sair do controle justamente no momento em que um fã com problemas psicológicos invadiu o palco - durante a 4ª música, "Conexão Amazônica" - e, antes que alguém pudesse fazer algo, deu uma gravata no vocalista que se defendeu com o microfone até que a segurança fizesse seu trabalho. A partir desse momento a situação foi ficando insustentável, muitos objetos sendo jogados no palco, brigas e "empurra-empurra" na platéia - cada vez mais inflamada -, e depois de tentar por quase uma hora retomar as rédeas da apresentação, sem sucesso, Renato encerrou o show. Quando as luzes se acenderam e "caiu a ficha", começou uma quebradeira generalizada que se alastrou para as imediações do estádio. Pessoas pisoteadas, ônibus depredados, fogo na lona que cobria o palco, naquele momento, aquela era a melhor representação do inferno no mundo real. Após esse episódio, a Legião foi praticamente escorraçada de Brasília, governo local ficou contra o grupo, as pessoas quebravam, queimavam, ou simplesmente jogavam fora seus discos, a imprensa queria vender suas publicações - como sempre - e até a igreja entrou na conversa, afinal, todos precisavam saber que aquele grupo de rock tinha "pacto com o demônio"... Essa "mágoa" ficou com Renato até o fim.

Acontecimentos como esse marcam muito, e a prova de que lições foram tiradas dali e que influências foram exercidas sobre o grupo, podem ser constatadas em todos os passos dados a partir daquele momento. O discurso ficou mais ameno, conciliador, as raízes "punk" só eram notadas em atitudes isoladas do próprio Renato e, mesmo assim, por outras razões que não aquelas manjadas de quem acha que vai mudar o mundo, radicalmente, fazendo música. E já no ano seguinte veio o "Quatro Estações" que não mudou o mundo, mas certamente o tornou um lugar muito melhor para se estar.

Curiosamente, acabo de me lembrar do falecido Bussunda (que Deus o tenha...) aproveitando para tirar um sarro dessa situação - admito que, na época, não levei muito na brincadeira, mas essas coisas são assim mesmo - na abertura de um especial organizado pela Rede Globo onde juntaram Paralamas do Sucesso e Legião Urbana. É só um detalhezinho mesmo... O cara era do bem e fará falta.

Duas boas novas...

O batera Iggor Cavalera deixou oficialmente o Sepultura (que já vinha se apresentando sem ele em diversas ocasiões), por incompatibilidade total de idéias. Ele se sentiu meio que "sobrando" na turma e pediu as contas. A notícia boa é que ele estará no Acústico MTV que Lenine gravará nesse fim de semana em São Paulo. A música provavelmente será "Dois Olhos Negros".

Sabe o Franz Ferdinand? Pois é, em setembro os escoceses estarão invadindo o Brasil novamente. Apresentação fechada mesmo - por enquanto - só em São Paulo, no Festival Motomix - entre 13 e 16 de setembro - mas há chances muito boas de rolar uma apresentação no Rio de Janeiro também (Claro Hall ou Fundição Progresso). Boas lembranças não faltam, afinal há cerca de quatro meses eles incendiavam o Circo Voador numa apresentação solo e, até certo ponto, inesperada (a princípio só abririam shows do U2 no Morumbi). O público fez espetáculo à parte, e aquela noite certamente entrou para história de todos que viveram aquele momento.

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