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Foto: Divulgação
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Pensemos no Big Brother. Não o programa de tevê, mas aquele do livro. Uma entidade superior (mas não divina, pelo contrário), capaz de ver cada movimento, cada ação de todos aqueles que vivem sob seu domínio. Para conseguir a uniformização das mentalidades de seus súditos forçados - e um tanto conformados - a simplificação máxima: chega-se até ao cúmulo de reduzir o vocabulário oficial, imaginando um futuro em que tudo poderia ser dito e comunicado através de uma única palavra.
Pensemos agora em Hollywood. Não apenas a indústria de cinema americana, mas em todo lugar do planeta que absorveu suas regras estéticas e ideológicas como matriz artística: Hollywood como uma entidade superior. Se também existe como um olho que tudo vê, é tão somente porque foi ela mesma a geradora das marionetes que faz mover falsamente filme após filme. As outras marionetes, não os atores, diretores, técnico-artistas, mas os espectadores, nós mesmos, também seus súditos, muito mais conformados e cada vez menos forçados (a passividade das platéias está à beira da morte cerebral). Tudo muito simples, tudo uniforme: para que dizer algo, se todo mundo já sabe exatamente o que será dito?
Finalmente pensemos no Big Brother, agora sim o programa de tevê, mas também em todos os outros "shows de realidade" espalhados por aí. Pensemos - e a atividade de pensar é a grande inimiga desse tipo de espetáculo, mas ainda assim nos atreveremos - em como, da realidade massacrante que a fonte orwelliana sugeria, e no modo que as primeiras tentativas do formato televisivo se armaram, se caminhou para o oposto perfeito, a ficção massacrada, exaurida, hollywoodiana enfim, onde o "reality" no nome passa a ser cada vez mais apenas um charme vazio. Pronto, depois desse longo trajeto podemos finalmente pensar em "Poseidon", em cartaz desde a última sexta-feira nos cinemas do Estado.
No longo plano-seqüência que abre o novo filme de Wolfgang Petersen, somos levados a conhecer, centímetro a centímetro, a imponência do transatlântico Poseidon. O virtuosismo fake dessa abertura serve mesmo como reconhecimento do terreno: já estivemos em ilhas desertas, em matas fechadas, em casas construídas dentro do Projac, agora estaremos num navio. O novo tabuleiro tem proporções épicas, mas o que acontecerá ali não será em nada diferente do jogo manjado de luta pelo prêmio final (e que este prêmio seja a chance de sobreviver a um naufrágio pouco interfere nas intenções do filme - salvar a própria vida ou ganhar meio milhão de dólares são, no fundo, a mesma coisa). Mais à frente teremos a chance de conhecer os participantes desta nova aventura. Mas já os conhecemos de cor e salteado. O esgotamento da fórmula dos reality shows, transformados em ficção pura e simples, promovem um casamento bizarro entre a tevê e o cinema, de modo que quase não podemos saber quem veio antes de quem, quem influenciou quem primeiro. A interseção que "Poseidon" promove deixa claro que, se é fundamental esse diálogo entre duas mídias tão próximas, o modo como ele tem se estabelecido só faz minar a relevância desse contato.
É difícil lembrar o nome de qualquer um dos personagens de "Poseidon". Um nome significa uma identidade, uma singularização, e tudo o que se quer evitar aqui é que os personagens realmente existam enquanto indivíduos. Sem nomes, lembramos dos tipos, e é isso que interessa. Desde a primeira vez que cada um dos jogadores do game Poseidon aparece na tela, vemos cair em cascata na frente deles tudo o que precisamos saber sobre sua "personalidade", e já podemos prever exatamente que rumo cada um tomará. Esse exercício de repetição adquire um caráter de morbidez absurda quando percebemos que ser eliminado neste jogo não significa sair da casa e perder o dinheiro do prêmio, mas sim a morte violenta no fosso de um elevador com estacas pontiagudas que dilaceram seu corpo, ou esmagado por uma peça de metal gigantesca que cai sobre sua cabeça. Existem também os bons jogadores, só que aqueles sujeitos vidrados na adrenalina da competição agora sorriem satisfeitos quando conseguem sair vivos de um salto mortal numa piscina de combustível em chamas. Os diálogos todos de "Poseidon", somados, não devem chegar a cinco páginas do roteiro. Aqui também se pretende eliminar o vocabulário, porque não há nada a dizer que não possa ser compreendido de maneira mais simplificada, pelo reforço do estereótipo, pela reiteração excessiva, pela infantilização de todas as emoções: o espectador de cinema, como o fã do reality show, é um sujeito com idade mental igual a 12 anos. Mas mesmo os devotos mais fervorosos já não acreditam na verdade da paixão do fulaninho pela fulaninha no Big Brother 6, sabem que ali por trás está o Boninho e a Rede Globo, do mesmo modo que a sinceridade nunca foi uma vontade de "Poseidon", porque no comando disso tudo estão sabidamente Wolfgang Petersen e toda a estrutura hollywoodiana. Mas se a realidade (mesmo que apenas imaginada) já escapou completamente deste tipo de produto, se a ficcionalização radical desta "realidade" apelou para aquilo de mais industrializado, para as mesmas fórmulas gastas que se esgotam filme após filme, programa de tevê após programa de tevê, se somos efetivamente tratados como retardados mentais incapazes de perceber as áreas cinzentas, as nuances, que só compreendem o que é preto e o que é branco, o que é bom e o que é mau, e se essa superestrutura de entretenimento já nem se importa em fingir que é sincera, então por que ainda assistimos esse tipo de coisa? Paremos então.
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