Toda Copa do Mundo serve para sepultar algumas teses e colocar em voga outras. Seguem algumas novas, recém-tiradas do forno. Devem ser consumidas logo, pois sua validade pode estar vencida depois dos próximos 90 minutos.
1 - O goleiro Dida vem dando crescentes sinais de nervosismo (pavor, em alguns momentos) diante do comportamento incerto dos zagueiros brasileiros. Teve sorte e boa colocação nos dois primeiros jogos da Copa, quando os atacantes adversários - croatas e australianos - só chutaram nas suas mãos, mas no jogo contra o Japão deixou passar um balaço. Como será nos jogos eliminatórios? Oxalá não precise nos provar que ainda não aprendeu a sair do gol.
2 - É assustadora a capacidade de desentendimento da zaga brasileira. Tomara que, além de sorte, Lucio e Juan continuem contando com a incompetência dos atacantes adversários na hora H.
3 - Seleção não é lugar para acomodar projetos individuais de superação de recordes. Cafu está tão devagar que Emerson passa a maior parte do tempo atrás dele, na expectativa de tomar a bola dos atacantes instruídos para explorar o furo direito da defesa brasileira.
4 - Missão semelhante à de Emerson tem Zé Roberto, o outro zelador do nosso meio-campo. Cabe a ele guarnecer os buracos deixados por Roberto Carlos no lado esquerdo da nossa defesa. Aliás, Zé Roberto está na Seleção por reproduzir - com maior talento e semelhante dedicação - o trabalho de formiguinha que notabilizou Zagalo no bicampeonato de 1958 e 1962.
5 - A sobrecarga defensiva do nosso meio-campo obriga os atacantes brasileiros a fazer o que ninguém gosta: marcar os adversários. É indisfarçável a falta de apetite de Adriano, Ronaldo e Ronaldinho para correr atrás da bola quando ela está com o adversário.
6 - O espetáculo mais enfadonho da Copa é o excesso de firula dos armandinhos do meio-campo. Todos os times parecem dispostos a provar que têm habilidade para trocar passes rápidos em pequenos espaços nas beiradas do gramado, como se o objetivo maior do jogo fosse a demonstração de fundamentos e não a perseguição incessante do principal objetivo: marcar gols.
7 - A julgar pelo elenco e pela forma de jogar da seleção de Parreira, ponteiro é espécie em extinção no futebol brasileiro. Sua antiga função, abrir caminho pelos lados mais desguarnecidos da defesa adversária e mandar a bola para o centro-avante e os meio-campistas na frente do gol, fica por conta dos laterais, que a executam mal e deixam buracos na retaguarda
8 - Os times das ex-colônias foram derrotados pelos seus antigos dominadores. Portugal 1 x 0 Angola e Inglaterra 2 x 0 Trinidad & Tobago foram alguns dos resultados mais notórios Esperemos que o Brasil não cruze com Portugal e, isso acontecendo, o técnico Luiz Felipe Scolari esteja de mal com seu santo.
10 - Até que ponto um jogador tem o direito de usar cabelo comprido em campo? No jogo Inglaterra 2 x 0 Trinidad & Tobago, foi o rabo-de-cavalo do zagueiro trinidadense que permitiu ao jaburu inglês Peter Crouch tomar impulso para a cabeceada que fechou o placar do jogo. Como os juízes não conseguem ver todos os lances irregulares que ocorrem nos entreveros provocados pelas bolas aéreas lançadas sobre as áreas decisivas, o gol inglês valeu, matando o esforço trinidadense para empatar a partida. Podem dizer que se cabelo curto ajudasse a ganhar jogo os times dos recrutas seriam imbatíveis, mas o futebol virou um esporte tão equilibrado que hoje em dia a vitória decorre de detalhes mínimos. Um rabo-de-cavalo, por exemplo.
11 - Diante da inapetência da maior parte (exceto Kaká) dos atacantes titulares, o maior espetáculo da Seleção Brasileira de 2006 até agora é o ímpeto ofensivo dos reservas Robinho, Fred, Juninho, Gilberto e Cicinho.
Frase de plantão
"Não conheço nenhuma outra maneira de se relacionar com grandes tarefas a não ser o jogo: ele é, como indício de grandeza, um pressuposto fundamental."
F. Nietszche (1844-1900), filósofo alemão
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