No birô das lembranças





Tavares Dias


Na minha rua, quando em menino, tinha coisas de assombrar.

Tinha pai de menino que era rico, dono de casa de dois andares e do primeiro jipe que conheci. Tinha pai de menino que fazia maravilhas de selas e arreios de montaria, trabalhando o couro com mão de mestre. Tinha pai de menino que deixava meus olhos faiscando de admiração, quando dava de mão nas ferramentas e fazia brotar, das madeiras, móveis de fina artesania. E tinha pai de menino que era valente matador de gente.

Mas só meu pai, e mais ninguém, tinha um birô. Ô palavra sonora, mágica, misteriosa, musical pros meus ouvidos de menino.

O birô era uma mesa grande, de escritório, onde o Pai cuidava de seus pequeníssimos negócios. Era também onde escrevia suas reflexões de homem amigo do verbo e da música que mora nas palavras e nos sons das palavras.

Muita vez ouvi, na escola e na rua, na igreja e na porta da prefeitura ou dos correios, elogios a outros pais, por suas conquistas, suas posses, suas fazendas, seus cofres supostamente abarrotados de dinheiro. E às vezes já ia ficando meio invejoso, quando, inevitavelmente, brotava na minha memória aquela imagem amarronzada e salvadora que enchia o escritório do Pai. E então me regozijava: podiam ter tudo, mas só meu pai tinha o birô.

Nunca ouvi nenhum outro menino dizer que o pai tinha um birô. Podia ter mesa de escritório. Birô, não, só lá em casa. E só o Papai.

Um dia o Pai me ensinou, entre tantas coisas boas, que a palavra era francesa e se escrevia bureau. Ante o meu estranhamento, foi capaz de me explicar também que as mesmas letras representavam sons diferentes, de acordo com as muitas línguas que havia no mundo. Aquilo significou minha primeira incursão na área das sonoridades, na pesquisa do universo sonoro, como mais tarde me ensinaria meu mestre Jaceguay Lins, que Deus o tenha.

Outro birôs vieram. No trem da Vale, comecei a comprar e ler livrinhos de bolso da série FBI. Então descobri que a sigla significava Federal Bureau of Investigations, a Polícia Federal dos Estados Unidos. Muitos anos depois, quando já ninguém chamava mesa de escritório de birô, ouvi falar em birô de edição, que nada mais é que um pequeno escritório onde se programam edições de boletins informativos, pequenos jornais.

Com a morte do Pai, não sei que fim levou o birô da minha infância e do meu encantamento. Passou o tempo, minha rua encurtou, meu imenso quintal também andou encolhendo. Mas na minha memória segue firme, e do mesmo tamanho, o birô em que Papai se sentava para suas reflexões de homem inteligente e religioso.

Na minha cidade, só meu Pai tinha um birô. E só mesmo eu sei que diferença isso fez e faz, o tempo todo.

Santo birô.