Parecia tímido, o raio de Sol de outono que entrou pela janela. Era manhãzinha, uma daquelas manhãzinhas indesejadas que costumam se seguir a uma noite maldormida.
Por isso, demorou a prestar atenção no raiozinho de Sol de outono.
Sua atenção voou imediatamente para a agenda ao dia, os bancos, as contas a cobrir, o corpo dizendo não por todas as juntas, logo à primeira tentativa de se levantar da cama.
Também tinha aquela mulher. Como é que ia fazer, cansado daquele jeito, pra lidar com tantas coisas concretas e outras tantas, afetivas, que se apresentavam antes da barba, do café, do noticiário da tv, dos jornais do dia?
No trabalho, lembrou-se logo, ia topar com gente disputando poder, com gente dotada de muito mais pose que competência, com mais discurso do que habilidades, com mais maledicência do que espírito de grupo.
Remexeu-se, inquieto, a boca tornada um bocejo interminável, os olhos recusando-se a se abrir, a cabeça latejando.
Além do mais, estava sozinho em casa, resmungou em pensamento. Ninguém pra conversar, para falar da noite maldormida, das disputas de poder, das maledicências, do sangue que todo dia jorra dos jornais, daquela mulher.
Concentrou-se na necessidade. Não tinha como ficar na cama. Tinha boa noção de responsabilidade, embora às vezes quisesse desistir de tudo.
Num arranco, pôs-se de pé, ameaçou cair sentado de novo na cama, firmou-se. E só então sua consciência deu de cara com o tímido raiozinho de Sol. E o recado foi imediatamente recebido: novo dia, novas chances, novas soluções, novos desafios, nova jornada.
Escancarou a janela. Deu de cara então com o Sol. E se lembrou de algo que ouvira, já fazia muitos anos, uma conversa entre dois amigos de seus pais.
-Vai viajar?
-Vou
-Sozinho?
-Sozinho e Deus...
Meia hora depois, motivado pelo mensageiro raio de Sol de outono, saía de casa, disposto a encarar, da melhor maneira possível, mais um dia de luta.
Sozinho e Deus.
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