Vitória (ES), edição de 04 de maio de 2006    
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Ocaso de um gênero
Se o filme de ação está mesmo morto, "16 Quadras" é um belo funeral



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


Houve um tempo em que o filme de ação era o carro-chefe da indústria hollywoodiana, mais ou menos até o fim da década de 90. Isso foi antes de começar a valer a regra que todo e qualquer filme, para ser minimamente rentável, precisava ser compreendido por uma criança de 12 anos, antes das comédias românticas a metro e do terror adolescente que sabe sempre que a mesma coisa já foi feita no verão passado. Não que toda a cinematografia truculenta anterior tivesse muitos neurônios (está aí Jean-Claude Van Damme que não nos deixa mentir), mas existia no meio daquela profusão de explosões e contagem altíssima de mortos algo de realmente pulsante, não apenas um pedacinho de inteligência que existia só para saciar os espectadores arredios ao entretenimento puro e simples, e sim uma idéia sobre o mundo e sobre o cinema que se atrevia a existir mesmo no gênero mais surrado de então.

Ao lado de John McTiernan (de "Duro de Matar"), Richard Donner e sua "Máquina Mortífera" foram grandes expoentes desse cinema. Mas a engrenagem da indústria é cruel, e não faz nenhuma questão de manter em alta seus operários mais antigos. Os dois diretores seguiram suas carreiras, sempre com muito talento, mas já sem o brilho e a atenção de antes. Donner podia muito bem despejar toda a amargura de estrela de um gênero que não existe mais neste "16 Quadras", em cartaz há duas semanas no Estado. Generoso como só pode ser alguém que um dia filmou com carinho paternal uma figura tão bizarra como o Slot de "Os Goonies", o diretor faz de seu novo trabalho um exame cuidadoso de tudo aquilo que já não funciona mais no filme de ação, e não se contenta apenas em apontar os equívocos. Saudoso daquela idéia de cinema, quer também provar que ainda é possível tirar dali alguma emoção: já que precisamos enterrar o defunto, que pelo menos nos lembremos das coisas boas que ele fez em vida.

  
Foto: Divulgação
  
As honras do funeral são feitas por ninguém menos que Bruce Willis, aquele que melhor representa esse heroísmo imortal, destemido e incrivelmente bem-humorado (Mel Gibson não era um ator exclusivo do cinema de ação, tendo feito até Hamlet antes dos quatro "Máquina Mortífera", Sylvester Stallone já concorrera ao Oscar por "Rocky", e Steven Segal e Chuck Norris andavam mais pelo filme B, de repercussão muito menor). A idéia de "16 Quadras" é a pura iconoclastia: Willis aparentando a idade que tem, careca, barrigudo, alcoólatra, corrupto. Ano passado já tínhamos visto esta roupagem em "Refém", de Florent Siri, visualmente até mais drástica - mas lá, quando finalmente era chamado para vestir o uniforme de salvador da pátria, Willis se barbeava, raspava o cabelo e emagrecia.

A derrocada em "16 Quadras" é permanente, dura o filme inteiro. O policial Jack Mosley que o ator interpreta não é um tipo mau caráter, mas está dominado pelo tédio e pela depressão de um fim de carreira melancólico - não poderia existe metáfora maior para o tipo de cinema que ele representa. Os bandidos são mais bandidos do que nunca, mas os mocinhos já não são tão mocinhos assim. Tanto Mosley quanto Eddie, a testemunha de um processo que ele tem que levar até o tribunal, têm a ficha suja, e o caminho de 16 quarteirões que os dois precisam percorrer será dificultado não por conta de algum grande perigo para os habitantes da cidade ou do país. O que está em jogo são conseqüências bem menores, quase mesquinhas, a consciência culpada de Mosley, a vontade de Eddie sair vivo do testemunho para poder montar uma padaria com dinheiro roubado, a disposição de um mau policial em fazer de tudo para evitar que seja incriminado por este testemunho.

Se não trará nenhuma transformação global, que a via crúcis de Mosley e Eddie sirva pelo menos para transformá-los intimamente. Eis outro mal percebido por Richard Donner, a necessidade que os filmes têm de sempre recuperar moralmente seus heróis, necessidade que não é em si condenável, mas que usada sem cuidado acaba se tornando uma muleta narrativa muito óbvia. "16 Quadras" então traz o tema da transformação pessoal para o centro de suas atenções. Os dois protagonistas, em dívida moral consigo mesmos, discutem várias vezes sobre a possibilidade de uma mudança real em suas condutas (como diz Eddie, "se Chuck Berry conseguiu, se Barry White conseguiu, por que não nós?"). Não há muita dúvida de que o filme de Donner vá, lá pelo final, promover essa recuperação, mas a idéia não era dizer que personagens falíveis são sempre irrecuperáveis: se é preciso mesmo salvar um protagonista do inferno, que isso seja feito com um mínimo de honestidade. O policial Mosley, com os apertos que passa, faz por merecer o passaporte para o céu que o filme lhe dá - mas sobrevivem nele as marcas do passado negro, e não vai ser uma aventura pelo meio de Nova York que apagará isso. Pelo estado físico e moral em que Mosley/Willis chega ao fim do filme fica claro que não é possível um "16 Quadras - O Retorno", não é possível transformar aquele episódio numa série. Estão todos muito cansados.

Cansados desse cinema de laboratório, em que promover tiroteios no meio de uma das maiores metrópoles do mundo é coisa simples, em que as dezenas de mortos pelo caminho não significam nada, em que o ratinho-personagem sabe exatamente que, na hora que a campainha soa, ele precisa sair correndo pelo túnel, salvar a humanidade, para então comer um pedacinho de queijo no final. Donner resume o filme de ação a essas premissas básicas, e assim questiona todas elas. Não há laboratório melhor que restringir seu espaço de atuação a alguns poucos quarteirões, deixar claro desde o começo que ali se seguirá um experimento de cinema cuja obrigação de verossimilhança é nenhuma, mas que ganha muito se permitir que seus personagens se debatam em problemas minimamente relacionáveis, humanos, enfim. Talvez seja isso.

O filme de ação começou a morrer quando passou a se fiar exclusivamente em seus super-heróis (no que foi vencido facilmente pelos verdadeiros super-heróis dos filmes baseados em HQ's). Faltaram os heróis comuns, que tem problemas na vida, que atrasam as contas, que bebem o salário todo. Mosley é o último deles, e se despede com a melancolia tão sincera que é impossível rejeitá-la. Mesmo que, como todo bom herói, seja alvo de uma centena de tiros de policiais treinados para isso e nenhum lhe acerte em cheio.

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