Vitória (ES), edição de 08 de maio de 2006    
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Nas mãos da obediência popular



Vítor Lopes




  
Foto: Rodrigo Melo
  

Reunidos na tarde de sábado (6) no Museu de Arte do Espírito Santo, em Vitória, cerca de 50 pessoas assistiram o improvisado auditório do Maes para conferir o que José Francisco Borges, internacionalmente conhecido como J. Borges, tinha a dizer sobre cordel e sua técnica de xilogravura.

Enquanto sua esposa vendia cordéis, xilogravuras, camisetas e outras lembranças a respeito do artista, J. Borges arrancavam gargalhadas dos presentes. Sem saber quem estava organizando o encontro - se era a Secretaria de Cultura do Município ou do Estado -, J. Borges afirmava o tempo todo. Em se tratando de cordel, "tem de ser obediente".

Após a leitura do seu extenso currículo, com diversas passagens internacionais, J. Borges afirmou: "Você conversou muito e não disse nada. Isso é história da Internet, de jornalista. Além de fazer fofoca e tudo, eles dizem que sou grande".

Confira, abaixo, os principais momentos do encontro

Sobre a importância do cordel
O cordel não deixa a literatura ser esquecida. O cordel já divertiu milhares de pessoas pelo mundo, servindo, inclusive, como jornalismo. Antigamente, ainda, ajudava as pessoas a aprender a ler. Eu mesmo, só fiz 10 meses de escola. Aprendi muita coisa lendo cordéis. Hoje o cordel já não ensina ninguém a ler mais. Ele passou a informar pessoas já formadas.

História geral
Essa literatura de cordel nossa veia da Europa. Em Portugal era bastante conhecido como literatura de cega, por que os cegos vendiam os livretos em lojas pelas cidades. Hoje, é só cordel.

História pessoal
Quando eu era criança, minha única diversão era o cordel. Não tinha rádio, nem TV, nem revista, nem jornal. Aí eu lia muitas histórias no cordel, histórias de vaqueiros, histórias engraçadas e outras, como "O Pavão Misterioso". Era comum ter festa em que cordéis eram lidos a noite toda. E ajudava a espalhar notícias pelo nordeste.

Riqueza
Ariano Suassuna disse para mim que conversar comigo era uma aula. Eu pedi explicações. Suassuna disse que a linguagem do cordel é muito rica, que na escola, na faculdade não tem essa linguagem. Para ele, é aí que está o brasileiro... o nordestino.

Morte e recuperação
Nos anos 90, o cordel quase morreu, chegando à beira da cova, ma sisos não aconteceu. É um sentimento do povo, por isso cai e depois retorna. Nos anos 70, publicávamos cerca de 10 mil unidades de cada título e demorava oito meses para vender tudo. Em 1995, já eram só 500 exemplares e demorava dois anos para vender. A recuperação veio graças aos estudantes, faculdades, turismo, intelectuais... Hoje ta melhor. Daqui a 10 anos vai vender que nem farinha.

  
Foto: Rodrigo Melo
  
Técnica de impressão
A tiragem nunca foi feita manualmente, sempre foi em gráfica. Antigamente era em tipografia. Hoje já é em off-set, algo mais sofisticado. O off-set não desprestigia o cordel. A qualidade é melhor até. A tipografia falhava muito. Sou a favor de dar esse direito ao cordel, dele ser bem feito, bem apresentado. Algumas capas minhas, por exemplo, ainda são feitas em tipografias. Mas os miolos são sempre em off-set. Minha máquina de tipografia tem mais de 120 anos e é alemão.

Inspiração
Quando eu olho para tido o que já fiz, não sei de onde tirei tanta coisa. (risos). Eu acordo às seis horas e vou para a oficina. Eu desenho cerca de 50 gravuras em duas manhãs. De tudo se faz um cordel.

Nascimento
O que vem primeiro? A história. Pela necessidade de ilustrar o cordel é que eu aprendi a fazer as gravuras. A prendi a fazer sozinho. Antes eu fazia só desenho pequeno. Mas os turistas começaram a pedir maiores. Mostraram uns para o Suassuna e ele disse que eu era o maior do nordeste. O povo acreditou e dei sorte.

Quadros
Todos os meus quadros são impressões manuais. A parte preta é com rolinho de borracha. As coloridas são mais difíceis de fazer. As mulheres que gostam mais das coloridas. (risos)

Técnica
A rima da literatura de cordel é aberta. A métrica é de sete sílabas e de vez em quando tem oito. E o texto tem de ter concordância com o tema. Tem muita gente que está se metendo a ser poeta, mas não tem oração, misturando assuntos ou fazendo rimas curtas ou longas demais. Tem de ser obediente.


 

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