Vitória (ES), edição de 09 de maio de 2006    
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Contra lombriga



Por Cristina Moura



  
Foto: Divulgação
  
A pior parte. Posso começar por ela? Sim, pois a pior parte era ter que tomar injeção. Não me lembro o nome dela, da aplicadora, mas sei que tinha uns olhos verdes bem claros como desinfetante de eucalipto. Eu ficava era torcendo para que, por algum motivo ou outro, minha mãe me levasse lá, quando fosse comprar algum remédio.

Difícil a farmácia São Francisco sair da minha cabeça. Ora, foi lá que comecei a exercitar a vaidade, de menina, de mocinha, ao me pesar naquela balança gigante. Será que foi vendida? Ao entrar, sempre me deparava com Eduardo Jorge, numa mesa enorme. Eu tinha um certo medo dele. Às vezes, da mãe dele, Dona Miriam. Às vezes, de mim mesma, quando percebia minha reação ridícula ao tomar uma agulhada. Certa vez, um escândalo. Aos gritos, na nádega, banda direita, ai que dor, ai que dor.

No balcão, lembro de George Sandro, Luzinete, Zeilton, Lúcia... Todos simpáticos e me achando tão bonitinha, tão sabidinha, tão inteligentinha, tão moreninha.

O melhor era ficar na pontinha dos pés para pegar, ao lado do caixa, um almanaque Sadol ou Biotônico Fontoura. Foi destes almanaques que a minha curiosidade pela leitura ficou mais forte, até então habituada às revistas da Turma da Mônica ou da Luluzinha ou do Bolinha ou as revistinhas de recortar e colar. Nos almanaques, eu não entendia, claro, a propaganda embutida, misturada a histórias em quadrinhos, causos, fases da lua, piadas, adivinhações, dicas de plantio, jogos dos sete erros, receitas, astrologia e o famoso calendário.

Mas por que não guardei ou não pedi para alguém guardar para mim um almanaque de 1982? Seria de suma importância agora, neste exato momento da minha vida. Foi o Almanaque Fontoura comemorativo aos cem anos do nascimento de Monteiro Lobato, exibindo quadrinhos sobre Jeca Tatuzinho, espécie de cria de Jeca Tatu. Na história, cujo enredo foi idealizado e batizado por Lobato, Jeca Tatuzinho tomava Biotônico, para ficar forte e se precaver de verminoses.

Eu me lembro, sim, desse almanaque, na casa de Tia Maria e Tio Vicente, em frente à Telpa. Eu, aos cinco anos de idade. "Vem cá, Cristina, vem ver Jeca Tatuzinho tomando remédio contra lombriga!...", dizia Tia Maria. Eu vi a história, espiei o almanaque, achei bacana, mas jamais esperaria um futuro de tantas descobertas do mundo lobatiano. Mundo que, ao sofrer tanta admiração da minha parte, seria transformado em objeto de estudo acadêmico.

O proprietário do laboratório, Cândido Fontoura, era amigo de Monteiro Lobato. Jeca já havia sido criado pelo escritor em meados de 1914 e publicado em forma de artigo: "Urupês", no jornal O Estado de São Paulo, o veículo preferido da oligarquia cafeeira. Quatro anos depois, o artigo viraria apêndice do primeiro livro homônimo, que também com "Uma velha praga" denunciaria as queimadas no Vale do Paraíba.

Através desses artigos, o Brasil começou a conhecer ou a despertar para a figura do caboclo, ou seja, o homem do campo, do interiorzão do país, que vivia de cócoras, pronto para ser pisoteado, esmigalhado pelo poder. E nada foi, assim, tão por acaso na cabeça de Lobato. Preocupado com o futuro do povo brasileiro e instigado pelo espírito do nacionalismo tão presente na América Latina, ele denunciou as mazelas que assolavam os homens rurais, também prontos para doenças como o conhecido "amarelão", dadas as condições preguiçosas e precárias e ciclicamente viciosas. O pobre do Jeca, com um facão na cintura, descalço, rezando para não ser vítima das almas penadas ou dos sacis... E pra quê saber votar?

Com espírito nacionalista também, mas sobretudo empresarial, o farmacêutico Cândido Fontoura havia criado a fórmula, mas precisava disseminá-la. Monteiro Lobato entrou na onda. Além das idéias, começou a rabiscar algumas ilustrações do caboclo, que na ficção trocava o seu pito de palha por uma colher cheinha do remédio.

Em 1926, a brochura com a história de Jeca Tatuzinho fez sucesso, o remédio também, mas Lobato já havia sido espinafrado pela maioria. Poucos o valorizaram na sua época. "Nós, na verdade, somos todos jecas", dizia. Não sabia ele que, apesar de tantos progressos, incluindo a sua maior briga, a dupla petróleo e ferro, tantos jecas ainda persistiriam acocorados um século depois. Ainda hoje, mesmo sem biotônico de almanaque.

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Este texto também pode ser lido no www.revistaoba.com.br


 

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