Vitória (ES), edição de 10 de maio de 2006    
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Quando o Paquistão encontra a França



Vítor Lopes

  
Foto: Divulgação
  

Quer ouvir música nova, estimulante, e que não faça o uso de aditivos da cena eletrônica? Recorra ao franco-italiano Stéphane Sanseverino, um verdadeiro caldeirão de gêneros musicais. Em seu segundo disco solo, batizado de "Les Sénégalaises", Sanseverino brinca consigo mesmo e apresenta um disco de qualidades fenomenais.

Sanseverino apresenta a alegria das misturas que realiza entre a música cigana, jazz, tango, ritmos tradicionais do leste europeu e música francesa vigente entre os séculos de 1920 e 1950.

Para entender toda a riqueza - e o já dito ainda é pouco - dessas adições, só conhecendo a história desse homem que nasceu na França em 1962. O pai de Sanseverino foi encanador e - após sair da Itália - deixou a França e levou a família para batalhar pelo mundo, tentando garantir uma melhor qualidade de vida.

Com essas andanças, Sanseverino, ainda adolescente, conheceu a cultura da Nova Zelândia, Itália, México, Bulgária e também da Iugoslávia. Aos 16 anos, voltou à França, revelando certa aptidão pelas artes. Quando completou 20 anos, ingressou numa companhia de teatro, tendo participado da elogiada "Les Frères Tamouille". Este grupo influenciou de maneira significativa os caminhos de Sanseverino na música, pois realizava misturas cênicas com a música e o circo. Para estar na companhia, Sanseverino aprendeu a tocar violão e banjo.

Sanseverino deixou o teatro por achar que as atividades cênicas gastavam muito tempo ensaiando para pouco se apresentar. Ele queria o contrário e viu na música uma possibilidade. Após também participar de alguns filmes de produção francesa, criou várias bandas, sendo que a principal foi a "Les Voleurs de Poules".

Em parceria com a violinista Sabine Pierron o inicialmente duo acústico - depois entraram bateria e baixo - fazia de tudo, do rock com músicas e danças folclóricas do Paquistão, passando por uso de elementos do blues, country e até traços sonoros da gaita-de-foles. Uma porralouquice de primeira. A música eletrônica passava longe. Sanseverino acha que elementos da música eletrônica anulam a espontaneidade das manifestações tradicionais. Na banda, além de tocar violão e banjo, encarava o microfone em letras de sua autoria.

O grupo, que também declarava ter influência da música romena e búlgara, inovava também nos shows. O primeiro concerto foi no cine-teatro Berry Zèbre, em Belleville, Paris. Como forma de aguçar os sentidos, um grupo de atores ficou encarregado de cozinhar pratos enquanto os músicos se apresentavam. Cheiros de cebola, gengibre, canela e pimenta ecoavam pelo local.

O sucesso e as dificuldades em conseguir locais fechados para se apresentar fazendo comida, obrigou o grupo a tocar em bares abertos nas ruas de Paris. O som que incomodava os vizinhos virou a sensação do "meio alternativo" local.

Para gravar o primeiro disco, independente, Sanseverino teve de convencer 200 pessoas a comprar um CD que ainda não existia. Com o dinheiro arrecadado, conseguiu gravar e lançar o álbum "Tu Sens de Poivrons", o único registro em disco do grupo Les Voleurs de Poules. A banda, criada em 1992, foi desfeita em 1995, ano de lançamento do disco.

Cansado de dividir responsabilidades no grupo e ter de adaptar suas letras só porque os outros componentes não gostavam, Sanseverino resolveu seguir em carreira solo. O ano de estréia foi 1997. Pouco tempo depois conseguiu um contrato com a filial francesa da Sony Music. Estava tudo pronto para a Europa descobrir as riquezas de Sanseverino. "Le Tango Des Gens", seu primeiro disco solo, foi lançado em 2001.

O sucesso de crítica e de público segmentado conferiu a Sanseverino o importante prêmio da Charles Cros Academy. Em suas 11 faixas, Sanseverino se utiliza, também, de todos os gêneros e estilos citados na matéria. Ele exclui o rock e acrescenta as influências das big bands do jazz swing, música flamenca e oriental. Como destaques, "Mail ô Main", "Swing du Nul", "Il Suffirait de Presque Rien" e "Frida". As letras das músicas revelam um comportamento despreocupado, de intenso bom humor, com histórias comuns, do cotidiano da vida parisiense.

No início de 2004, Sanseverino deu um outro salto ao lançar "Les Sénégalaises". As 50 mil cópias vendidas (disco de ouro) do álbum antecessor está conferindo uma agenda cheia de compromisso para o músico. "Les Sénégalaises" vem na mesma linha do anterior, explorando ainda mais o lado circense em algumas faixas, bem como as festivas músicas instrumentais. Continua, também, o quase não uso de bateria e percussão nas músicas. A marcação rítmica é dada pelas batidas abafadas do violão.

  
Foto: Divulgação
  
Os dois álbum solos de Sanseverino evocam a felicidade. Faz dançar - mesmo quem não gosta de dançar-, sorrir e cantar - mesmo que não se saiba nada em francês. Aposto que ele acharia graça e se divertiria com o fato. Sanseverino limpa os tímpanos. Um convite à vida.

Alguns sites estrangeiros disponibilizam audições gratuitas dos discos de Sanseverino. No Brasil, só são encontrados em lojas que trabalham com a importação de discos. Recentemente, acabou de chegar às lojas européias o seu primeiro DVD, uma apresentação acústica no teatro de Sebastopol.


 

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