A própria dinâmica de alguns dos principais problemas brasileiros contém paradoxos que deverão, em breve, levar a mudanças importantes.
Em 2006, teremos uma agenda eleitoral a partir de junho. Um cardápio de problemas e questões a serem discutidas. Depois, em outubro e novembro, teremos o compasso dos tambores das urnas.
Até que, em 2007, com a instalação de novos governos e novas casas legislativas, pode ser que a própria inércia dos paradoxos acabe forçando as mudanças. Mudanças que poderão advir de imperativos da própria realidade, mais do que como voluntarismo de "vontades políticas".
Na esfera da Política, o paradoxo do nosso presidencialismo-parlamentarista está desconstruindo o nosso sistema político a partir dos seus próprios vírus. E colocando o processo político brasileiro no limiar do limite, na fronteira da ingovernabilidade e da crise de legitimidade.
Por isto, é possível que o tema da reforma política venha a ficar maduro a partir de 2007. Com o efeito colateral da produção de uma rearrumação do quadro partidário.
Em Brasília, e nos estados, já se fala aberta e convictamente em fortes migrações partidárias, todas no sentido da criação de novo (s) partido (s). Por exemplo, dentro do PMDB há quem articule uma saída em bloco para a criação de um novo partido.
Isto ocorrendo, pode ser que o paradoxo do nosso presidencialismo venha a induzir reformas que permitam a formação de maiorias estáveis do governo.
Já na esfera do paradoxo fiscal brasileiro - formado pelo círculo mais democracia-mais demandas por serviços públicos sobre o Estado -mais carga tributária-menos investimentos -, tudo indica que uma nova reforma da previdência seja ver outro imperativo de realidade, e não apenas "vontade política" voluntarista.
Com a reforma da previdência, conjugada com a mudança do perfil da dívida pública brasileira (mais adoção de títulos pré-indexados), vai ser possível superar a síndrome do baixo crescimento econômico.
Depois, na esfera da gestão pública, há o paradoxo das competências concorrentes entre os três níveis de gestão pública (federal, estadual, municipal).
Esta concorrência e superposição entre os três níveis de governo, leva ao desperdício, à ineficácia e à impossibilidade de definir quem é responsável por qual serviço. O que compromete o papel maior da Política, o de articulação e agregação de interesses. Além de causar problemas nas áreas de segurança e saúde, por exemplo.
O paradoxo das competências concorrentes deverá levar à colocação do tema do federalismo no topo da agenda dos próximos anos. Agora, na direção do retorno à descentralização, na melhor tradição das sístoles e diástoles do pêndulo político brasileiro.
É provável que estes temas cruciais entrem na agenda eleitoral. Mais do que isto (entrar na agenda), é muito provável que estes temas sejam implementados de 2007 em diante. São imperativos da realidade brasileira, com seus paradoxos e contradições que estão chegando ao limite.
É o limiar do limite do nosso presidencialismo-parlamentarista. Do limite da estratégia de "jogar para frente" a solução da crise fiscal. E, também, do limite de um federalismo perdulário e burro - o federalismo de competências concorrentes.
Até onde a vista alcança, o compasso dos tambores das urnas e das vozes das ruas gera o prenúncio de que estamos, vale repetir, no limiar dos limites dos nossos paradoxos.
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