Todo mundo já leu ou ouviu falar que no início dos tempos, logo depois de criar o mundo, Deus achou que faltava alguma coisa naquela monotonia do paraíso e, para alegrar o homem, inventou a mulher... (a versão feminista diz que foi o contrário: Deus fez o homem a partir da mulher, tomando o cuidado de colocar nele algo que faltava a ela). A vida passou a ter mais graça, mas logo em seguida o homem (a mulher idem) perdeu a paz, pois precisou trabalhar para sustentar a família. Uma das decorrências terrenas da criatividade divina foi o casamento, instituição que obriga metade da humanidade a viver em busca de um parceiro, enquanto a outra metade luta para se livrar do seu...
A versão sacana dessa história diz que na mesma época primordial, para quebrar a monotonia do inferno, o Diabo, encantado com a beleza da música (criada pelos anjos nos céus) e vendo que homens e mulheres não sabiam o que fazer com tanta energia acumulada, teve a feliz idéia de inventar a dança. Os homens então começaram a dançar uns com os outros, e pareceu bom, mas logo veio um diabo mais esperto que disse: "Experimentem dançar homem com mulher". E todos viram que era muito melhor. Uma das conseqüências dessa idéia diabólica é que para botar ordem no baile criaram a polícia, depois o judiciário e assim por diante, até chegarmos ao que aí está.
Até hoje muita gente, inspirada nessas diferentes versões da história do mundo, acredita que o universo evolui por contradição entre os desígnios divinos e os desmandos do Demo. Um põe, o Outro dispõe e assim as coisas se desdobram e se ajustam/desajustam, numa seqüência interminável, aliás simbolizada pela espiral que serve como representação gráfica do DNA, o código genético dos seres vivos.
Muita gente também acredita na existência de universos paralelos, que repetiriam em outras dimensões o que rola na vida de cada um a cada momento. Seríamos assim múltiplos de nós mesmos. A democracia, por exemplo, seria uma manifestação do acordo possível entre Deus e o Diabo em determinado momento da história de um grupo social, de uma comunidade, um país. Daí o caráter mutante dos eleitos. Eles se elegem como salvadores do mundo, mas terminam seus mandatos como exterminadores do futuro.
Não estou aqui para defender esse ou aquele governante ou candidato, mas é preciso registrar que também os eleitores são sujeitos a mutações, podendo repudiar seus eleitos, trocar de candidato e assim por diante. A história está cheia de políticos repudiados após eleições consagradoras e o contrário - candidatos consagrados após derrotas eleitorais. Aí estão Collor e Lula para provar que não estou dizendo bobagem.
De mutação em mutação, chegamos ao caso presente. Há quem tenha votado em Lula quatro vezes e agora esteja disposto a apostar em uma nulidade qualquer, no Enéas de saias e até naquele que há quatro anos parecia o candidato mais antipático da História do Brasil.
O fato indiscutível à luz da presente doutrina bipolar é que a vontade deles (eleitos ou eleitores) não conta: o resultado final é sempre uma combinação suprema criada para gerar a contradição necessária e suficiente para promover o ritual da troca democrática - mais ou menos como de tempos em tempos as árvores e as cobras trocam suas respectivas cascas. Alguns chamam isso de dialética da história. Do movimento pendular inerente a todas as coisas não estão livres eleitos e eleitores.
Em época eleitoral, portanto, não se deve perder tempo perguntando se esse ou aquele veio em nome de Deus ou do Diabo. Tenham ou não motivações próprias, representem ou não grupos que se organizam em partidos identificados por siglas diversas, os candidatos incorporam energias soltas no ar e de repente podem subir ou cair nas intenções de voto, ao sabor de uma frase ou da interpretação de um gesto. Tudo é legítimo. Em 2002 Ciro Gomes perdeu metade de seus simpatizantes por uma simples declaração machista a respeito do papel de Patricia Pillar em sua campanha. A frase de Ciro era um primor de narcisismo: "O papel da Patrícia é dormir comigo".
Estejam ou não sendo manipulados por marqueteiros, na real acontece isso mesmo: os candidatos obedecem ao ajuste possível entre os projetos divinos e os despachos demoníacos. Por isso é importante prestar atenção no que fazem e dizem os concorrentes. Vejam o que aconteceu com o paulista Geraldinho "Chuchu" Alckmin: mal se colocou no partidor para competir com Lula, tropeçou na coleção de vestidos de sua mulher, que fazia merchandising para um costureiro da granfinagem paulistana. Como a primeira dama D. Marisa, que andou recebendo alguns presentes no início de sua vida em palácio, D. Lu Alckmin não sabia que essas coisas pegam mal.
Diante de tantos tropeços e até de lances bizarros como a greve de fome do Garotinho - esse ficou mal com Deus, não? -, muitos eleitores podem sentir a tentação de desesperar da democracia, vendendo o voto, ficando em casa no dia da eleição, votando nulo ou em branco, mas na prática é indispensável participar do ritual em que o povo deposita nas urnas suas esperanças e frustrações.
Mesmo que o beneficiário do voto acabe se revelando um canalha - isso é comum -, votar é como botar uma semente na terra: um gesto de esperança, de fé no futuro. O que sai das urnas pode ser realmente o fruto de uma combinação espúria, mas a democracia não terá sentido se não acreditarmos que ao votar, consciente ou inconscientemente, ajudamos no processo evolutivo da Natureza.
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