Por entre duas pêras de vez





Tavares Dias


Desde a vez primeira em que destonteei por entremeio os seios miquelangélicos dela, na aflição dos contentamentos estremecentes, nunca mais deslembrei do cheiro feiticeiro de mulher feliz.

Coisa de verdadeira vez primeira, quem é do ramo sabe, é salseiro de pôr a tocar dobrados e trinados no coração do vivente. No coreto do peito, uma fanfarra de andamento acelerado mas de uma alegria que de mais libertária notícia nunca nem de leve parecida não correu no mundão de Deus, nem dentro nem fora da gente, em manhãs de domingos nenhuns não havendo, rebrilha entre cordas, madeiras e metais.

O bom do cheiro bom que me entrou pelos buracos do nariz na vez primeira em que destonteei por entremeio os seios miquelangélicos dela ficou também entranhado em mim todo, em todo o percurso do cheiro bom desde as brenhas da grota lá de seus segredos fêmeos que pulsam entocados nos encimões das entrecoxas lá dela.

Naquela enfeitiçada madrugada, aprendi, meninote ainda, pela graça de Deus, coisa muita que muito sujeito homem passa a vida sem descortinar: mulher pode fingir prazer o tanto que for, mas o cheiro de mulher feliz não vende em botica nem butique nem loja de flor, mulher nenhuma pode comprar, nem aspergir nem mascarar. Cheiro de mulher limpa é um trem. Cheiro de mulher limpa, feliz e satisfeita com sua condição de fêmea é trem de outra ordem, da ordem das instâncias de perfume animal, de inebriância tal qual a da dama-da-noite, só que muito mais sublime e superior, melhormente comparável à da rosa, rainha.

Os miquelangélicos seios dela, adonde destonteei pela vez primeira, na aflição dos contentamentos estremecentes, eram duas pêras morenas que colhi ainda de vez. Durinhos feito dois cotovelos, guardavam também, de mistério e consistência, maciez de todo aconchego.

Ali conheci o repouso do jovem guerreiro que corria por ceca e meca feito cachorro atrás do rabo. Ali baixei a adrenalina do futebol, do boxe, de tantas artes marciais, das corridas, dos saltos em altura e distância, do vôlei, das porradarias semanais nos bailes, do revólver na cintura, da ânsia de conhecimento, das disputas fajutas que eu cavucava em busca de trens curativos que só descobri no dia em que destonteei, pela vez primeira, por entremeio os seios miquelangélicos dela.

Noite dessas, ganhei de presente um sonho em que passava reprise do filme da enfeitiçada madrugada em que pela vez primeira destonteei por entremeio os seios miquelangélicos dela. Acordei sem rumo, desentendido dos entendimentos, abestado de risão, caçando concretudes na abstração da felicidade por instantes rediviva tornada. O quarto todo era o cheiro feliz dela.

Na dia seguinte, a ninguém que passou por mim ou comigo esteve foi dado sentir o cheiro feliz de Rosamaria, só a mim mesmo, mas meu olhar brilhava diferente, e isso qualquer todo um, toda uma com olhos de ver, enxergar puderam.

Toda mulher feliz e todo homem feliz e capaz de sentir o cheiro de mulher feliz serão capazes de sorrir por dentro, ou mesmo por fora inteiros, no conhecer desta conversa contente, e vão se lembrar da vez primeira em que também destontearam, na aflição dos contentamentos estremecentes, no peito do seu inteiro e primeiro amor de verdade.

Pois assim é. Digo, redigo e dou fé. Feito a malícia-delícia da cantiga de congo, de autor desconhecido, assinada pela anônima sensibilidade poética do povo do Espírito Santo:

“Namorei uma casada/escondida do marido./Se me perguntar eu nego,/se me aborrecer eu digo:/paciência, coração,/a sorte é só Deus quem dá.”