Vitória (ES), edição de 11 de maio de 2006    
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O júri circense



Por Cristina Moura




  
Foto: Rodrigo Melo
  
"The Clown" (O Palhaço), do italiano Alfieri

Uma noite de sábado, uma tarde de domingo qualquer. Fortes no imaginário popular, todos entram em cena: a cena do picadeiro. Criaturas fantasiosas percorrem os nervos sempre atônitos, sempre a postos para mais uma atração inacreditável.

O grande circo domina a cidade, com as peripécias mais duvidosas - porém, aceitáveis para a busca da verdade de cada um. No tribunal, as correntes se deixam libertar para mais um crime.

O juiz, o apresentador, o que convoca as atrações, o que suspende o público em minutos de tensão ou admiração. O réu, silencioso, o que trama intimamente a sua inocência, em nome da alegria. Algumas testemunhas invadem o número: fazem rir, contam piadas dissimuladas, são xingadas, adormecem. Vestem-se de maneira hilariante.

Os advogados de acusação entram, impávidos, são trancafiados no globo da morte. Cada um com sua motocicleta, cada um com seu giro implacável, cada um com a sua utopia arrendada ao bilhete por cada cidadão naquele instante.

No alto, a defesa, no trapézio. Saltos mortais, trios ou quartetos fantásticos e a incerteza em saber se a rede será suficiente para tanto alarde. Quebrando a tensão, as sensacionais bailarinas. Intervalo, barulho nos arredores, confabulações. O encanto da dança, o esplendor das luzes.

Depois, o equilibrista, ainda sem nome, ainda pacato, mas com todas as provas e contraprovas na cabeça, nas abas de um chapéu gigante. Os adestrados também fazem parte. Enquanto isso, pipocas, refrigerantes, algodões-doces, balões e bicicletas.

Um amigo do réu teria sido avisado que ganharia muito mais se ensinasse macacos a sorrir e a posar em série. Aprendeu. Estava no circo. Um afilhado da testemunha número um era bom em amansar feras. Foi aplaudido com as chicotadas no picadeiro para ensinar a dois leões sobre viver em sociedade.

Outro amigo do réu teria sido um companheiro nas selvas. Aprendeu a lidar com elefantes, altos escalões animalescos, poderes quase que soberanos entre as pernas. O homem que sabia cuspir fogo não se importava com o silêncio. Era um conhecido de um dos advogados e teria sido avisado que suas tochas poderiam fazer efeito, caso a ponderação continuasse no espetáculo. Outro malabarista, compadre do advogado de acusação, gostava de atirar facas, mesmo que, no centro do alvo estivesse plantada uma bela comparsa.

O respeitável público não sabia, no entanto, que teria que esperar anos e anos para assistir a um desfecho de um número qualquer. Caso o prefeito fosse gente boa, querido dos administradores circenses, talvez as atrações pudessem ser mais aplaudidas. Como não havia o que perder, no final de semana seguinte, o grande circo já tinha sido convidado a levantar seu mastro na cidade vizinha.


 

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