Ultimamente tenho notado um crescente interesse pelas chamadas Intervenções Urbanas. Só no último mês fui interpelado umas três ou quatro vezes sobre o assunto. É sintomático que apesar das pessoas em geral falarem das cidades de forma pejorativa em oposição às visões idílicas do campo, elas reconhecem que aquele tipo de assentamento é por excelência o lugar do homem. O Homem é Urbano. Não é à toa que boa parte da população mundial está localizada nestes locais.
O outro motivo que me levou a abordar este tema foi o Salão de Mar e mais especificamente o varal estendido por sobre a Avenida Presidente Getúlio Vargas, de autoria do artista pernambucano Lourival Batista, e que foi um dos vencedores do Prêmio Aquisição dado pela organização do Salão.
Diferente de Duchamp e Warhol que também se utilizaram de objetos do cotidiano para fazer sua arte, Lourival ganha as ruas ao estender seu varal. Se antes os artistas se utilizavam de galerias e museus para expor sua produção, hoje em dia estes espaços já não dão conta mais de seus questionamentos e de suas inquietudes. O problema não é só físico ou estrutural, é conceitual. Museus e galerias se tornaram partes fundamentais do mercado de arte. Ao ter suas obras expostas em determinado espaço institucional, o artista ganha uma chancela e uma valorização nem sempre condizente com a sua obra.
Não faz muito tempo que o artista Yuri Firmeza causou uma verdadeira pane no universo artístico do Ceará ao anunciar a exposição do seu alter ego, o "renomado" artista japonês Souzousareta Geijutsuka (que em japonês, significa artista inventado), chamada Geijitsu Kakuu (arte e ficção). A questão principal do artista era denunciar e tornar evidente as engrenagens do sistema da arte. Se bem que fez isso com a conivência do próprio...
Além disso, o público comum tem dificuldade de acessar estes espaços que apesar de gratuitos ou acessíveis a baixos preços se tornaram por demais sacralizados. Um exemplo disso é ir numa exposição da Ligia Clark e não poder tocar nos "Bichos", feitos exatamente para serem tocados e dispostos de acordo com o público.
Num país onde a cultura é um luxo para poucos, as intervenções urbanas querem acima de tudo ir até o público, chamar sua atenção, seduzi-lo, incomodá-lo. Entretanto, apesar da óbvia democratização ao acesso e da desinstitucionalização das obras de arte, o que está em jogo com as intervenções urbanas é a reconquista do espaço público em contraposição aos espaços semi-privados ligados ao ócio (não o criativo) e ao consumo dos shoppings.
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