Vitória (ES), edição de 12 de maio de 2006    
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Impossível é mais gostoso
Sobra talento e falta coragem para usá-lo em "Missão Impossível III"



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


O primeiro trailer promocional de "Missão Impossível III", exibido logo no começo do ano, mostrava um quase-monólogo do vilão Owen Davian (Philip Seymour Hoffman), o rosto impassível de uma maldade patológica enchendo a tela e desfiando uma ameaça que contava passo a passo o que faria com a mulher daquele que encarava. Silêncio, e só depois de muito tempo um corte na imagem mostrava o outro lado da conversa, o agente Ethan Hunt (Tom Cruise), lacrimejando de medo. A calma do vilão e a tensão do mocinho davam a entender que a situação estava sob o absoluto controle do primeiro - isso até o filme entrar em cartaz, na última sexta-feira.

Quando o momento recortado no trailer aparece inteiro no filme, vemos que a situação é rigorosamente oposta. Nada do silêncio de antes, vilão e mocinho estão num avião barulhento em pleno vôo. Nada do domínio da maldade, Davian está amarrado a uma cadeira, completamente dominado por Hunt, que tenta tirar dele a informação do paradeiro de uma daquelas armas biológicas que podem destruir o mundo inteiro. A frieza do vilão é pura defesa, os olhos mareados do mocinho são a raiva a ponto de explodir. Uma mesma situação e duas significações totalmente diferentes: é esse o tamanho do poder da organização dos planos, o que alguns chamam de "específico fílmico", aquilo que faria o cinema diferente de todas as outras artes. A montagem é a fonte de todas as possibilidades de variação na costura de uma história feita de imagens e sons, e num filme desse porte ela tem um papel ainda mais importante.

  
Foto: Divulgação
  
J.J. Abrams, o diretor do filme (mais conhecido como o criador da série de tevê "Lost"), sabe bem como se dispor dessas possibilidades, e faz deste o filme de artesanato mais bem cuidado da série, se esmerando tanto nas aguardadas cenas de espetáculo como nos momentos de caserna - a conversa que Hunt e seu chefe mantém aos sussurros numa loja de conveniência, logo no começo do filme, é de uma beleza e consciência notáveis. Mas a questão da possibilidade num filme chamado "Missão Impossível" é de outra ordem. Estamos diante de um universo onde tudo é permitido, porque o contrato com o realismo e a verossimilhança está quebrado desde o título. A impossibilidade como dado estruturante daquela realidade paralela é justamente o que garantiria a disposição de todas as possibilidades de ação existentes: não propriamente um filme de ação, mas um filme de aventura fantástica, mais próximo de um "A Lenda" que de um "Top Gun" (para ficarmos em dois filmes protagonizados por Tom Cruise). Chegamos em "Missão Impossível III" e o que vemos é a castração desta grande abertura. Anteriormente, Brian De Palma e John Woo fizeram de Hunt um super-herói inumano, inteiramente dedicado ao trabalho, pulando prédios e precipícios com a facilidade de quem se desvia de uma poça d'água na rua, e daí construíram essa idéia da impossibilidade, traduzida para aquele universo particular onde nada daquilo soava falso ou mentiroso, porque, afinal, num mundo de mentiras deslavadas, é a verdade que sempre parece errada. Abrams e os produtores deste novo filme querem justamente dar alguma veracidade a este protagonista. De super-herói à super-homem, Ethan Hunt é preenchido de humanidades, ganha finalmente uma vida pessoal, tem uma namorada com quem está prestes a se casar, cunhado, amigos, família.

Lidar com este outro lado do protagonista exige mais do que uma montagem esperta, e aí "Missão Impossível III" constrói seus próprios pés de barro. O desafio de um personagem mais complexo, agora não apenas agindo em nome de um governo ou para salvar o mundo, mas agindo em nome de si mesmo e para salvar o próprio amor, é encarado com desleixo por J.J. Abrams. Duplo tiro pela culatra: a relação amorosa sofre com a incapacidade de alguma intimidade sincera num filme dado a explosões barulhentas e absurdas, ao mesmo tempo em que as explosões perdem o brilho ao serem colocadas lado a lado com cenas de beijos românticos e declarações de amor - não por uma incompatibilidade natural desses dois momentos narrativos tão distintos, mas porque o próprio filme os trata como rivais. Quando tenta o casamento efetivo dessas duas realidades, imbricando a vida de marido na vida de agente secreto, "Missão Impossível III" chega numa encruzilhada, mas acovarda-se. Como no recente "Marcas da Violência", o lado cândido da história é obrigado a sujar as mãos, mas se no filme de David Cronenberg os efeitos dessa contaminação eram imediatos e irreversíveis, para J.J. Abrams eles podem muito bem ser esquecidos em nome do final feliz. Havia até material para ir adiante: Philip Seymour Hoffman é, disparado, o melhor vilão da série, acompanhado por uma fragilidade curiosa na atuação de Tom Cruise, que leva muito a sério a dualidade da personalidade de seu personagem (coisa que o próprio filme não leva tanto assim), a já mencionada competência do diretor para construir as cenas. Mas o leque de possibilidades está reduzido a um mínimo de reações de cartilha, previsíveis e esgotadas. Era melhor quando a missão parecia realmente impossível.


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