Uma lágrima pelo Rio Doce





Tavares Dias


Cai um chuvisquinho besta de outono, desses que o povo do interior chama de chuva de molhar bobo. Acocorados debaixo da copa de uma ingazeira, o ribeirinho Bastchão Bedurri e seu compadre Amós pouco falam. Observam o Rio Doce, a água barrenta, o leito assoreado, o antigo cantar da cachoeira, que antigamente a quilômetros se ouvia, transformado já num murmúrio quase imperceptível.

O passar ralentado do seu amado Rio Doce, cadáver insepulto cujo enterro, segundo as pesquisas, levará poucos anos para acabar de passar, enche de melancolia o coração dos dois pescadores, antigos ribeirinhos que nasceram quando o velho rio, um dos mais antigos do mundo, ainda guardava muito de sua pujança, de suas límpidas águas, da brancura imaculada de suas areias.

Então Amós recorda, tristão, um pouco do que, menino ainda, ouvira de seu pai: que o Rio Doce era o grande manancial de todos os seres, bicho e gente, que habitavam o trecho de mata atlântica que guarnecia o seu vale; que a mata era coisa aonde só os mais valentes se aventuravam; que era nas praias do grande veio dágua que nossos ancestrais tocaiavam antas, pacas, capivaras, tamanduás, quatis, guarás, gatos-do-mato, onças e catitus, enormes lagartos, aves de toda cor, de todo feitio e de todo alarido.

Piaus, corvinas, grumatãs, piabanhas, robalos, dourados de 10, de 15 quilos, surubins de 20, de 30 quilos, tudo era parte do dia-a-dia daqueles corajosos pioneiros que ali enfrentaram impaludismo, a inconformada reação dos botocudos que banhavam sua inocência alegre, em grandes grupos, pelo remanso que começava pouco depois do pé da cachoeira, onde se formava uma grande baía e a Praia do Jaó exibia a pureza clara de sua areia e a exuberância milenar de sua vegetação.

A estrada de ferro, prossegue Amós, lembrando as conversas do pai, ainda nem sonhava em chegar. O que existia eram picadas na mata, por onde seguiam as tropas de burros carregados de mantimentos e outros gêneros de primeira necessidade. Muita gente nunca tinha ouvido falar de luz elétrica. Grande importância tinham o sal, para a alimentação, e o querosene, para as lamparinas e os lampiões. O resto a terra provia.
-Não faz nem 100 anos, Bedurri. E o Rio Doce já virou isso aí.

Já tinham assassnado a mata. Já tinham feito a usina de Mascarenhas, que acabou com os peixes de piracema, interrompendo sua subida para a desova nos seus ninhos de reprodução. Agora, fizeram a usina de Aimorés. Mataram a história de todo o povo de uma cidade, desviaram o rio. Piranhas e tucunarés, predadores estranhos, introduzidos no rio por mãos criminosas, arrasaram o que restava de cascudos, bocarras, carás, peixes-flor, lambaris, cumbacas, caçaris, cachorrinhos, mandis, os bagres naturais da região. Pescador virou peão da construção civil. O poder do dinheiro rouba a história da gente, a cultura da gente, vai espremendo a alma da gente aos pouquinhos.

Bastchão Bedurri, com sua serenidade habitual, comunga a tristeza de seu compadre, é parte da mesma dor. Mas consegue evitar que a revolta chegue inteira ao reino da palavra. Limita-se a dizer, pausadamente, depois de um silêncio:
-Quem não sabe rezar xinga a Deus, meu compadre.
Estão tristes. Recolhem suas varinhas de bambu. Com aquele chuvisco, vai ser ainda mais difícil pegar alguns dos raros lambaris que pretendiam usar como iscas, à noite, pra pescar traíras numa lagoa que resiste milagrosamente a poucos quilômetros dali.

Vão subindo a ladeira do porto, o coração apertado. É de tardezinha. No botequim de Janjão Três Beiço, bem na esquina, o som de um rádio junta-se à tristeza dos dois, nos versos de Jatobá cantados por Xangai:

"Que triste sina/teve o cedro nosso primo./Parece até mentira/que o jacarandá,/antes de virar poltrona,/porta, armário,/morar no dicionário,/vida eterna, milenar./Quem hoje é vivo/corre perigo"...