Vitória (ES), edição de 30 de janeiro de 2006    
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Chico Buarque



Oscar Vasconcelos
Atualizado toda terça-feira, às 16 horas


Não vou mergulhar nisso agora, mas vou tecer um breve comentário sobre duas declarações recentes de Chico Buarque. Uma diz respeito a necessidade de abrirmos uma discussão e uma nova maneira de lidar com a realidade das drogas, seus consumidores e fornecedores e a outra é a manutenção do voto em Lula nas próximas eleições. Ambas surgem embasadas por sensata e indiscutível análise dos respectivos cenários atuais. Ponto de vista muito claro e direto. Qualquer pessoa tem o direito de emitir ou possuir outra opinião, mas, antes de críticas cegas e ocas, deve-se ao menos ler o "quê" e "como" foi dito. Leitor de "manchetes" não vai longe. Dessa vez, ao contrário da campanha pelo desarmamento, estou com ele e não abro.

Vamos ao disco.

A possibilidade de ouvir algo novo lançado por Chico Buarque, merece todo um ritual. Toda calma, toda atenção, toda alma e todos os sentidos ligados. Não é para ser fácil. Nas primeiras audições, as que "ficam" mais, são, naturalmente, já conhecidas, como "Dura Na Queda" - é o "samba" do disco, composto para a peça que contou a vida de Elza Soares e gravado por ela no excepcional "Do Cóccix Até o Pescoço" (2002). Possui um verso magnífico: "O sol ensolarará a estrada dela" -, "Renata Maria" - parceria com Ivan Lins, gravada originalmente por Leila Pinheiro em "Nos Horizontes do Mundo" (2004) - e "Ode Aos Ratos/Embolada" - extraída do musical "Cambaio" (2001), gravada por Chico na ocasião, é parceria com Edu Lobo e talvez o melhor arranjo de um álbum repleto de arranjos primorosos -, aqui há a inserção do "rap" "Embolada" e programações eletrônicas, coerentes com o pedido explícito feito na música que abre o disco.

Após ouvir mais atentamente, assim como o sol que se impões majestoso rompendo nuvens em meio a um tempo nublado, as faixas revelam-se pérolas de diversos pesos e medidas. Pérolas, pérolas... "Subúrbios" abre cantando a periferia com aguçada percepção observadora, sua cultura e costumes, "...a luz é dura/ a chapa é quente/ que futuro tem aquela gente toda?...", pede que se fale a língua do "rap" e traz versos sutis e contundentes como "Desbanca a outra / A tal que abusa/ De ser tão maravilhosa". "Outros Sonhos" carrega os, agora, "polêmicos" versos "Maconha só se comprava na tabacaria/Drogas na drogaria" e tem a deliciosa melodia de um sonho bom. "Por que era ela, por que era eu" também já havia sido lançada na compilação "Chico no Cinema" (2005), lenta e bela. "As Atrizes" é uma homenagem às divas do cinema que, na tela, marcaram o cantor em determinada época, e quase sobre o mesmo tema, mas com uma levada mais "bossa nova", "Ela Faz Cinema" - "quando ela chora não sei se é dos olhos pra fora" -, no momento é uma das minhas preferidas entre as 100% inéditas. Belas cordas em "Bolero Blues" - primeira parceria com o músico e amigo Jorge Helder e, certamente, um dos momentos mais emocionantes e engraçados do dvd que acompanha o disco. "Leve" é música de 1997, não gravada por Chico, parceria com Carlinhos Vergueiro, outra letra sublime, se aproxima de um samba, mas não chega a ser - "Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça/Da sua cortiça". "Sempre", feita para inédito filme de Cacá Diegues é suave com uma certa tensão controlada que se espalha em versos como "Dura a vida alguns instantes/ Porém mais do que bastantes/ Quando cada instante é sempre". Fechando o álbum, aquela que foi a primeira música composta por Tom Jobim em um "exercício de classe" no ano de 1947, a valsa "Imagina". A letra só veio em 1983, feita por Chico para a trilha do filme "Para Viver Um Grande Amor". Gravada "jobinianamente" em dueto com a ótima Mônica Salmasso e acompanhados por Daniel Jobim, neto de Tom, ao piano. É um presente, registro e resgate do resultado de um encontro de gênios.

"Carioca" é um grande disco, Chico mostra porque ainda é um letrista acima da média e renova sua sonoridade sem causar estranheza. Ah, e sem dúvida ele é o melhor cantor de sua obra.

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