Havia ali o filme do gênio absoluto que passa pela narrativa apenas para provar o quão genial ele realmente foi. Havia ainda o filme do homossexual discriminado e pobre que vence na vida e alcança o mundo das luzes de Nova York e Hollywood, o filme do embate mental entre um literato famoso e um assassino sanguinário, o filme-denúncia sobre a falta de validade da execução de condenados pelo Estado, o filme-crônica de um país que acumula esqueletos no armário e ignora seus próprios fantasmas, até mesmo o filme da libertação pessoal pelo contato próximo entre as diferenças. De todos esses filmes que existem em
"Capote" (em cartaz no Cine Metrópolis), aquele que o diretor estreante Bennett Miller decide levar a cabo é o mais difícil e improvável, dadas as facilidades que qualquer uma dessas outras histórias possíveis traria a seu trabalho. Da primeira à última cena, "Capote" ensaia sua marcha fúnebre, cada vez mais pesada, cada vez mais impregnada de uma melancolia e um pesar próprios daqueles que se encontram com o fim: não um filme sobre a morte, mas um filme que se coloca ao lado dela para observar a vida que caminha em sua direção, ganhando com essa disposição corajosa as marcas inevitáveis de quem se aproxima tanto de algo tão terrível. A idéia de um final envolve cada imagem, e nenhuma delas sequer sugere que ele seja feliz.
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Foto: Divulgação
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| Perry Smith (Clifton Collins Jr.) e Truman Capote (Philip Seymour Hoffman): muito diferentes na vida, muito próximos diante da morte.
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Para desafiar a lógica desta triste inevitabilidade, nada melhor que trazer para o centro da ação uma personalidade como a de Truman Capote. Só a arrogância do escritor poderia se atrever a mergulhar tão fundo na história da chacina de uma família pacata sem correr o risco de se contaminar por ela. Desse ponto de vista, Bennett Miller faz um retrato quase oposto àquele primeiro que imaginamos: a figura de Capote nunca é vista sob o signo da genialidade. Se consegue efetivamente levar adiante sua cruzada literária é por conta de seu espírito calculista e manipulador - não é uma questão de gênio das letras, mas de gênio da arte de tirar vantagem da fragilidade alheia. "Capote", o filme, tenta o tempo inteiro decifrar Capote, o personagem: identifica padrões, desvenda gestos, interpreta olhares. Com os instrumentos que dispõe (a bela luz e os enquadramentos de Adam Kimmel e a música discreta de Mychael Danna), busca comentar cada reação expressiva de Philip Seymour Hoffman, sempre se antecipando àquilo que o protagonista está tramando em sua mente agitada. O personagem que sai daí, longe de ceder ao caráter de homenagem póstuma que um filme como esse poderia sugerir, acaba se impondo justamente por ser tão negativo. Um tipo egocêntrico, ardiloso, canalha, muitas vezes mentiroso deslavado.
Capote, para conquistar a simpatia do interlocutor e arrancar dele as informações que precisa, começa a falar apiedado de sua própria vida sofrida, tentando relacionar seu caráter totalmente alienígena naquela cidadezinha do interior do Kansas à atmosfera simplória e humilde que envolve a todos ali. É essa estratégia calculada de aproximação que garante uma tese duvidosa, mas que ele se esforça para levar adiante. O contato com Perry Smith (Clifton Collins Jr.), um dos executores da chacina, faz Capote dizer que ambos são a mesma coisa, pessoas parecidas na origem e cuja única diferença foi o caminho escolhido para seguir na vida. Nem mesmo quando diz isso literalmente, Bennett Miller parece acreditar em seu protagonista. Numa belíssima cena na cela de Perry, logo após o escritor desfiar pela primeira vez sua teoria da semelhança, o diretor coloca closes sucessivos dos rostos de cada um de seus personagens, ambos abatidos e dividindo a mesma expressão de desencanto, para então mostrá-los juntos na mesma imagem, sentados de frente um para o outro. O preso curvado sobre os joelhos, cabeça baixa, corpo franzino e enfraquecido, o escritor sentado elegantemente com as pernas cruzadas, a postura ereta, o rosto firme e virado para o alto: não poderiam haver duas pessoas mais diferentes que os dois, e se há alguma aproximação é porque, no passo seguinte, não há arrogância jornalística ou frieza assassina que se mantenha imune à sombra da morte.
O terço final de "Capote" é o clímax de um concerto sinistro que durante todo o filme Bennett Miller vinha trazendo em tom menor. Surgem ao mesmo tempo a confirmação da execução de Perry Smith e o relato muito aguardado por Truman Capote da noite em que ele e seu amigo Richard Hickock mataram friamente uma família inteira. Nesse ponto em que as duas trajetórias de Perry se unem, o assassino que será assassinado, todo o domínio que "Capote" parecia exercer sobre seus personagens finalmente se desfaz. Até onde foi possível, o filme tentou explorar as facetas mais aparentes daqueles que acompanhava, mas seu mérito maior é saber reconhecer a grandeza de sentimentos que escapam de qualquer exploração, pois não são dominados nem mesmo por aqueles que os sentem, e então deixá-los livres para existir em sua potência plena: a seqüência soberba em que Perry Smith conta detalhadamente o modo como matou as quatro pessoas (e um relato preciso só poderia gerar imagens precisas, daí a necessidade de mostrar um pescoço cortado e jorrando sangue ou uma cabeça estourada por um tiro), exibe um assassino inclassificável, entre a consciência e a inconsciência, entre a maldade absoluta e uma inocência quase comovente. Nesse momento, Capote sabe que não há semelhança alguma entre eles. Se sai ileso da história das mortes (e consegue vertê-la em livro, tirando sucesso e prestígio dali), a morte de Perry deixará marcas incalculáveis. É onde Capote-personagem se desvencilha de Capote-filme: uma canção de notas dissonantes que se arrastará por anos de dor e ostracismo. A pequena partitura fúnebre de Bennett Miller, ao mesmo tempo triste e cheia de vida, consciente da impossibilidade de domar alguém dessa grandeza, termina ali.
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