Ave, Chico




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Causaram polêmicas as entrevistas concedidas por Chico Buarque para o lançamento do seu novo CD, "Carioca".

Ao defender o governo Lula e, principalmente, o presidente Lula, declarando desde já o seu voto, Chico transformou as referências e análises de sua entrevista num verdadeiro Fla-Flu político-ideológico. Os lulistas e petistas o aplaudiram. Os novos e velhos anti-lulistas e anti-petistas o malharam com indignação.

Entretanto, lida e relida nas linhas e entrelinhas, a entrevista de Chico Buarque é uma lúcida análise sobre as opções políticas brasileiras. Com disparos tanto para o lado do PT, quanto para o lado do PSDB.

Chico envereda mais pelo caminho antropológico e sociológico, do que pelo caminho político e ideológico.

Critica os petistas como arrogantes, assinalando que eles costumavam dizer que ou você é petista ou é um calhorda. Julga que para o PT o escândalo foi desastroso e torce para que possa, daí, surgir um partido mais correto e menos arrogante.

Entretanto, enfatiza que a crítica ao PT e, principalmente, à Lula , erra na mão. Erra na mão quando chega a chamar o presidente de vagabundo, quando se ameaça dar porrada no presidente, quando, enfim, se desnuda um preconceito de classe a la Casa Grande e Senzala.

E é aqui que Chico estimula o país a olhar para o nosso momento político sob este prisma mais antropológico. Penso que precisamos refletir sobre o que ele diz sem paixão.

Diz ele: ".. o preconceito de classe contra Lula continua existindo - e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente. O sujeito mais humilde ouve e pensa : 'que história é esta de burro !? De ignorante !? De imbecil !?'. Não me lembro de ninguém falar estas coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo ! Ladrão ! Assassino ! - até assassino eu já vi". (Folha de São Paulo , 06/05/06).

Chico deixa clara a decepção de sua geração com o rumo que tomou o Brasil e o mundo. Enfatiza que parte da sua geração que chegou ao poder não lutou a vida inteira "para isso".

Entretanto, julga que o país deu um passo importante elegendo Lula. E considera deseducativo o discurso em voga: "tão cedo estes caras não voltam, eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas". Diz, literalmente, que acha tudo isso muito grave, numa clara alusão à necessidade que a democracia tem de renovar e circular as suas elites e de praticar a alternância do poder.

Neste ponto, dispara também contra o PSDB, quando diz que o pessoal do PSDB acha que você ou é tucano ou é burro. E, aí, declara seu voto no Lula. Dizendo: "vou votar no Alckmin ? Não vou. Acredito qu , apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado..." ( Folha de São Paulo, 06/05/06).

Dispara também contra o PSDB quando afirma que as pessoas se servem do passado de esquerda como se fosse um título, um adorno: "na prática política essa identidade não funciona mais. Mas não funciona não só porque as pessoas viraram a casaca. A história levou para isso. Levou o PSDB a se tornar o que é e obrigou o PT a abdicar de qualquer veleidade socialista ou revolucionária" (FS , 06/05/06).

Grande Chico. Lança um novo olhar sobre o espectro político brasileiro. Sobre as opções que a história está colocando para o país, para além dos rótulos e adornos.

Sobretudo, Chico estimula, mesmo, uma releitura antropológica da política brasileira, a partir da experiência de um presidente de origem popular no poder.

Mostra a natureza popular da liderança de Lula e provoca os que o execram por "preconceito de classe" (no sentido antropológico de Gilberto Freire e outros, mais do que no sentido marxista de "luta de classe").

Neste diapasão, com nova partitura, Chico Buarque de Holanda instiga os analistas a procurarem, digamos assim, razões antropológicas para explicar a liderança de Lula. E aponta novos caminhos para o entendimento desta liderança.

No final, leva-nos a indagar se, desta vez, nas eleições de 2006, as classes médias realmente terão o papel decisivo que têm tido - como formadoras de opinião - na influência dos votos das classes "C", "D" e "E" nas eleições brasileiras. Talvez não. Talvez, agora, as chamadas classes populares já estejam de "cabeça feita"...