Vida de Imigrante - Águas de maio




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


A primeira chuva de verão chegou como convém. Não mais que de repente, o céu azul ficou nublado, a tarde antes clara escureceu, e a tormenta chegou com tudo. Um pequeno lembrete do que nos espera para a temporada anual dos furacões que se avizinha.

Como todo bom turista, os furacões gostam de passar o verão na Flórida. E por que não? Temos belas praias e intensa vida noturna, verão escaldante e mil e uma atrações para todos os gostos, bolsos e estilos. Belos shopings, com os melhores preços da América. Restaurantes de todos os sabores, satisfazendo o gosto de todas as culturas.

Fale aí um país, um povo, e vamos encontrar suas comidas típicas bem representadas. Também os festivais - de todas nações, de artes, de flores, de comidas típicas, de dança, de cinema, de música, de teatro, de tudo. E os parques - de macacos, de papagaios, de cobras e lagartos, até de dinossauros. Sem falar na Disney e seus efeitos colaterais - a imensa atividade que se alimenta das sobras do gigante.

Claro que os furacões não se divertem com essa efervescente diversidade artística e cultural. O que eles gostam mesmo é de atrapalhá-las. Temos ainda muitas atividades turísticas fechadas, pois não se recuperaram do ano passado. E a maioria das casas ainda tem os telhados - ou o que restou dos telhados - cobertos de lona azul.

Como em todos os anos, juramos e garantimos que esse ano vai ser diferente, que vamos estar preparados, que faremos nossos estoques com bastante antecedência, para evitar filas, engarrafamentos, surpresas. Como em todos os anos, até agora nada disto foi feito, e duvido que venha a ser.

Também todos os anos juramos não sofrer mais. Passar os feriadões do furacão trancados em casa, comendo enlatados à luz de velas ou agüentando o barulho de um gerador? Não, quando o indesejado se fizer anunciar, pegamos carro, papagaio, cachorro e a parafernália necessária e nos mandamos. Vamos descansar e curtir algum lugar tranqüilo, sem riscos e sem falta disso e daquilo.

Mas ir para onde? Na verdade, não se conhece a caprichosa rota dos monstros, a não ser quando já estão bem próximos. Também não lhes conhecemos a extensão, quantos dias de folga teremos graças aos caprichos da natureza. Tudo fica no improviso, na suposição e na sorte.

No ano passado, Wilma fez metade da Flórida parar por duas semanas. Mas não reclamamos, tivemos descanso e um modo de vida diferente. Sem gasolina, sem luz e sem trabalho, todos curtiram mais a família, os vizinhos, a vida ao ar livre. Muitas amizades - e dizem que casamentos - começaram pela total falta do que fazer nesse período.

Nove meses depois, também a população teve um índice maior de crescimento.

E ninguém reclamou - o Katrina foi muito pior em Nova Orleans. Para esse ano, as previsões não são das melhores, e os ventos irritados prometem fazer estragos. Vamos aguardar, pois.