Não queria estar na pele do ministro da Agricultura. Deve estar ardendo barbaridade. A crise das lavouras graníferas frita sem dó a maior vocação ministerial das últimas décadas. A entourage presidencial joga lenha na fogueira e não lhe oferece água.
Explica-se a fritura. Embora não seja filiado a partido, o paulista Roberto Rodrigues leva jeito de tucano. No fundo, tem uma queda para o PFL. Grande fazendeiro (nos anos 70 foi o maior produtor individual de cana do país) no interior paulista, é conservador por natureza mas tem um espírito conciliador, forjado no magistério agrícola e na política cooperativista, onde se destacou internacionalmente. A vocação política vem do berço. Seu pai, Antonio Rodrigues, foi vice-governador do "duro" Abreu Sodré no início da ditadura militar.
A destinação ministerial não é balela. Falou-se de Rodrigues para ministro do Sarney, do Collor, do Itamar e do Fernando Henrique. Ele sempre desejou o cargo, mas nunca o reivindicou publicamente. O ministério seria o coroamento de uma bela carreira. Lula o chamou para atender às pressões do Agro. O ministro do coração de Lula seria José Graziano da Silva, especialista em reforma agrária a quem coube tocar o Programa Fome Zero, que só saiu do chão quando virou o Bolsa-Família.
Nos primeiros anos do governo Lula, Rodrigues surfou na onda favorável do agronegócio. Por dois anos teve vento a favor, ainda que dentro do governo tenha passado fome por verbas sonegadas pela Fazenda. Agora anda por aí engolindo sapo em público. Já provou ser dotado de grande paciência. Mas seus olhos caídos não mentem: curte a dor do isolamento político. É provável que esteja esticando a permanência no governo na esperança de plantar seu projeto de longo prazo para a agricultura brasileira. Resta saber se há clima para semear algo permanente numa terra acostumada ao imediatismo.
As manifestações de agricultores pelo Brasil afora não são brincadeira. Eles estão revoltados. No dia 16/4 em Chapecó, principal pólo da agricultura familiar da Santa Catarina, cerca de 2.000 produtores exibiram a faixa "Crise na agricultura: só o presidente Lula não sabe", vinculando a crise rural com a paralisia política do governo pós-crise do mensalão.
Não há como negar: mesmo com a inflação controlada, o barco do Lula está fazendo água.
No Agro, as únicas lavouras que vão bem são o café e a cana. Quase todas as cadeias produtivas estão operando com prejuízos e sem perspectiva a não ser que o governo lhes conceda uma moratória. Sem recursos para pagar os financiamentos pendentes da safra de 2005 e os compromissos financeiros da safra em curso, os agricultores pedem para alongar as dívidas, que na virada do semestre somarão R$ 50 bilhões, segundo um dirigente rural de Santa Catarina.
Não é novidade que o modelo econômico brasileiro transfere renda do setor agrícola para os setores urbanos, especialmente bancos, que cobram as mais altas taxas de juros do mundo. Nunca o setor financeiro ganhou tanto quanto no governo Lula. Os setores que fornecem à agricultura estão de orelha em pé. A maior fábrica de tratores do Brasil, controlada pela John Deere, suspendeu a produção por 108 dias, pois o mercado está em suspense.
Nesse contexto assustador, os líderes rurais, amigos e admiradores de Roberto Rodrigues, aproveitam para aprofundar a crítica a uma das colunas mestras da política agrícola de Lula - o apoio à reforma agrária e à agricultura familiar. O presidente da catarinense Cooperalfa, Mário Lanznaster, calcula que para cada agricultor assentado pelo programa de reforma agrária, outros cinco deixam o campo em razão dos problemas conjunturais do setor primário.
Com o dólar a pouco mais de dois reais, alguns exportadores estão abrindo o bico. A indústria de calçados gaúcha demitiu 20 mil pessoas. A Volkswagen jogou a toalha e o BNDES foi correndo ampará-la, temeroso do efeito-dominó sobre os setores que fornecem para a indústria automobilística. Para a agricultura, só vieram medidas pontuais, por enquanto. Até quando?
Os agricultores choram porque vivem na corda bamba, mas não dá para fingir que não está acontecendo nada. A Copa do Mundo não garante trégua. Um escorregão brasileiro na Alemanha pode entornar o caldo onde o povão ceva sua auto-estima. Às vésperas do verão, a Europa está para entrar em festa, mas aqui no hemisfério sul do planeta a coisa pode pegar fogo.
Posso estar enganado, mas tenho a impressão de que já vi esse filme - com o sinal trocado. Lembro dos quebra-quebras de junho de 1975, logo depois que uma "geada negra" matou os cafezais no Paraná e no interior paulista, jogando milhares de pessoas na rua da amargura. Foi ali que Geisel viu a coisa preta e decidiu que estava na hora de abrir o regime ditatorial.
Será que Lula se lembra desse filme? Certamente. Naquele ano, ele já era diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, aonde chegara após o acidente que lhe roubou o dedo mingo da mão esquerda. A maior e mais eficiente fábrica de automóveis do Brasil era justamente essa que os alemães ameaçam fechar agora porque se tornou antieconômica na voragem da globalização dos mercados.
Quantas vezes, então, o líder metalúrgico barbudo esteve no portão da grande fábrica, na Via Anchieta, apelando à consciência de classe dos seus bravos cumpanheiros? Longe de mim a idéia de comparar a ditadura de outrora com a democracia de hoje, mas trinta anos depois parece que o filme começa a passar de trás para a frente.
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