Nesse momento de disputas eleitorais é comum ouvir falar em democracia. É um discurso fácil, "politicamente correto", mas que, como tantos outros, mascaram a realidade. Na verdade, poucas pessoas sabem dizer com clareza o que é essa tal de democracia. A idéia geral é de que a democracia é uma coisa boa, mas ninguém sabe exatamente o que é. A melhor definição de democracia foi feita, se não me engano, por Millôr Fernandes: "democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim".
No fundo, são poucas as pessoas que compreendem e têm um verdadeiro apreço pela democracia. E há um excelente motivo para isso: aceitando a definição usual, de que democracia é "o povo no poder" (por mais deficiente que seja essa definição). Podemos aceitar que tal forma de governo implica em deixar o comando da máquina estatal nas mãos de cada um de nós.
De um lado, essa idéia é bastante atraente - afinal, eu vou estar no poder! - mas de outro é apavorante: o meu vizinho também vai estar no poder! O poder difuso dessa forma é inútil. Basta pensar em uma favela: cada um cuida da sua própria vida e a vida de todos é uma miséria. Quando muito, surge uma liderança que melhora a vida de um grupo (um traficante, por exemplo) ou alguém consegue se destacar (e sair da favela).
Vê-se logo a dificuldade de trabalhar com a definição usual: todos no poder é o mesmo que ninguém no poder. O poder político só se manifesta na forma de Estado quando está concentrado. A difusão desordenada é a própria negação do poder.
Mas, em pequenos grupos, ou utilizando a tecnologia atual, seria perfeitamente plausível pensar no poder concentrado em um órgão executor, que se limita a executar as decisões tomadas pelo povo, que decide por si só.
Como exemplo dos pequenos grupos, podemos pensar em condomínios. É perfeitamente possível tomar decisões, e o síndico executa-las. Naturalmente, quem conhece esse tipo de reunião já tem algum medo da democracia, porque mesmo em prédios de pessoas mais abastadas (talvez principalmente nestes), impera a balbúrdia e a irracionalidade.
Pensando no uso da tecnologia, no estágio atual, seria perfeitamente possível imaginar um país sem parlamento. No estágio atual, para que servem os deputados e senadores? Se esses são (como gostam de dizer) a voz do povo, porque não deixar o povo falar por si mesmo? Até existem algumas desculpas, mas nenhuma delas convence. Se no passado era impossível coletar a opinião do povo sem representantes, hoje não existe dificuldade nenhuma em fazê-lo.
A principal desculpa é a falta de segurança dos meios eletrônicos. Certo, o risco de fraude existe nas comunicações eletrônicas. Mas o voto é feito por meio eletrônico; as transações bancárias também; os jogos de loteria idem. Porque o cidadão confia na tecnologia para movimentar seu patrimônio e não confiaria para expressar sua vontade sobre um assunto específico? E o que é melhor: confiar na tecnologia ou abrir mão da própria vontade, confiando-a nas mãos de um desconhecido?
No atual estágio tecnológico, escolher um representante para o parlamento equivale a escolher um estranho para controlar suas transações bancárias. Por mais imbecil que seja o dono do dinheiro, é melhor perdê-lo por um erro grotesco que ser roubado.
Aliás, aí reside a única vantagem da democracia, no meu ponto de vista: o povo aprenderá com seus próprios erros, reduzindo com o tempo essa terrível tendência brasileira de colocar a culpa nos outros.
Pois se uma pessoa de inteligência mediana perde seu dinheiro por causa de uma aplicação infeliz, vai pensar duas vezes antes de fazer a mesma aplicação. Depois de uma vida de tentativas, erros e acertos, fatalmente irá adquirir experiência para melhorar suas escolhas. O mesmo vale para o exercício da democracia direta.
Na verdade, a democracia direta ainda não foi implantada porque o homem se recusa a mudar. Não é a falta de meios, mas sim o medo. O medo do novo, o medo de decidir, a ojeriza de assumir responsabilidade e, no fim das contas, o medo da própria democracia.
Confiar na escolha democrática é confiar na decisão do povo, o mesmo povo que adora funk, se mantém informado pelo Jornal Nacional e toma decisões econômicas ouvindo a Mirian Leitão e cia. Ou, em última análise, o medo da democracia é o medo que a sociedade tem de olhar no espelho.
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