Vitória (ES), edição de 26 de maio de 2006    
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Crônica de uma coluna
"O Código da Vinci" em primeira pessoa



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


Não, eu não li o livro. E também não veria o filme, não fosse a conjunção astral que fez desta última semana um verdadeiro deserto cinematográfico no Espírito Santo: nada de bom estreou nas salas, nada de bom chegou às locadoras. Mas a segunda-feira é implacável, e como este espaço precisava de um tema, não restava outra alternativa a não ser "O Código da Vinci".

Há muito de preconceito nisso, confesso. Através da História existiram muito mais exemplos que confirmassem do que negassem o petardo nelsonrodriguiano de que a unanimidade é burra. Mas 60 milhões de leitores do mundo inteiro não podem estar errados, não é? Bem, é muito provável que sim - e que recado isso dá sobre os dias de hoje. Mas se o medo do best seller de Dan Brown justifica-se pelo medo dos best sellers em geral (diga aí um livro que ficou dezenas de semanas na lista de mais vendidos e que mereça entrar para a eternidade das obras-primas literárias?), o medo de sua transposição para o cinema não se justificaria de modo algum. Afinal de contas, este é um colunista que nunca leu um Harry Potter, mas que adora os quatro filmes da série (diz até que o terceiro filme é próximo do excelente), que não leu o livro do Drauzio Varella mas que estava na fila para a versão do Hector Babenco, que se divertiu com o filminho do Sherlock Holmes no Brasil adaptado do (adivinhem?) best seller de Jô Soares. E não só nas transposições literárias de caráter duvidoso: qualquer filme meia-boca este colunista já sai traçando.

Crítico de cinema não pode ter muito preconceito com as coisas, porque volta e meia aparece uma surpresa perdida dentro de uma embalagem nada atraente, e perder a chance de elogiar um filme que todo mundo odeia é a glória desse tipo de gente (digo, o meu tipo de gente). O que seria dessa coluna não fosse a chance de apreciar o filme mais honesto de Cameron Crowe ("Tudo Sobre Elizabethtown"), de chamar atenção para o belo e depredado "Filhas do Vento", de Joel Zito Araújo, para dois grandes filmes esquecidos como "Mistérios da Carne" e "Lado Selvagem", ou para a última cartada do mestre Richard Donner, "16 Quadras"?

  
Foto: Divulgação
  
Langdon e Sophie, os heróis de blockbuster mais sem carisma da História
Sexta-feira à tarde estava indo para a Cinemateca do MAM ver o mais romântico filme brasileiro de todos os tempos (a saber, "A Margem", do Ozualdo Candeias). Eram 4 da tarde, "O Código da Vinci" acabara de ter suas primeiras sessões pela cidade, e ao meu lado no ônibus senta-se justamente uma mocinha que não se conteve e foi assistir uma delas. Falava ao telefone com uma amiga, as duas fãs absolutas do livro. Primeira reação minha: aumentar o volume do discman e fugir daquele papo. Antes que eu pudesse atingir o botão no aparelho, no entanto, a mocinha disse para a amiga: "lembra daquele outro filme que, para desvendar o código de uma mensagem, ficava acendendo uma letrinha de cada vez? Nesse tem a mesma coisa!". Tomei um susto. O outro filme que a mocinha mencionou é "Uma Mente Brilhante", que até o "Crash" desse ano era o pior filme a já ter ganho o Oscar. Por trás dele e de "O Código da Vinci" estava o motivo da minha recusa a vê-lo: Ron Howard. Todos vocês que lêem esta coluna já devem ter visto pelo menos uns seis filmes dele ("Cocoon", "Splash - Uma Sereia em Minha Vida", "Apollo 13", "O Preço de um Resgate", "O Jornal", "O Grinch", ai meu Deus...). Ron Howard é o pior diretor em atividade na Hollywood atual, e não por acaso talvez seja o mais querido por ela. Nele existe uma combinação perfeita para o tipo de negócio que é gerido na ensolarada Califórnia: um diretor que não se impõe como autor, que não se importa em ter uma idéia de vida e do mundo e transpô-la para o cinema, que não tem nenhuma marca artística, enfim, um diretor sem o mínimo de personalidade. Ao mesmo tempo, goza de certo prestígio por ter feito filmes de sucesso, por ter apelo junto a atores que faturam alto na bilheteria (não, Tom Hanks não está nesse filme por causa de seu talento), por estar há muito tempo trabalhando na indústria. Um pau para toda obra que não se faz de rogado com isso, e que ainda tira uma grana legal para os estúdios: quando saiu o anúncio de que "O Código da Vinci" seria filmado, imediatamente pensei que isso tinha cara de Ron Howard - e tinha mesmo. Só duas vezes na vida o sujeito acertou: como narrador da série de tevê "Arrested Development" e como pai de Bryce Dallas Howard (aquela de "A Vila" e "Manderlay").

Já convencido de que não tinha como escapar do confronto com o inimigo, fui assistir a primeira sessão de "O Código da Vinci" no domingo, num cinema de shopping. Uma sessão de onze e meia da manhã, e eu pensei que só críticos obrigados a escrever sobre um filme para o dia seguinte acordavam a essa hora no domingo para ir ao cinema. Qual não foi a minha surpresa quando chego à sala (de 345 lugares) e vejo 80% dela ocupada, por todo tipo de gente. Consigo um lugar mais ou menos na quarta fileira, ao lado de duas meninas com cara de estudantes de Direito que traziam o livro de Dan Brown no colo (para conferir se nada dele estava faltando no filme, talvez). Do lado oposto um senhor grisalho com sua mulher, ambos vestidos dignamente, aquele mesmo tipo de casal que sempre encontro nos cinemas do Rio, que nos anos 60 faziam coquetel molotov para atirar na polícia repressiva e que hoje se conformam em não perder nenhum filme em cartaz - esses não pareciam fãs do best seller, eles e eu éramos os únicos naquele cinema. Atrás de nós um quinteto de senhorinhas que narravam cada ação do filme sempre pontuando-o com frases do tipo "está igualzinho!" ou "eles não colocaram tal coisa do livro!". Fim do filme, só eu e mais duas pessoas ficamos até o fim dos créditos. O pai, careca e barrigudo, provável engenheiro, com o filho de uns 13 anos, ambos discutindo avidamente aquilo que acontecera nas últimas duas horas e meia, os olhos de ambos brilhavam como se tivessem visto a própria Maria Madalena diante deles. Na saída da sessão, por volta das duas da tarde, a bilheteira avisava pelo microfone para uma fila de 300 pessoas que todos os ingressos de todas as sessões de todas as quatro salas onde "O Código da Vinci" era exibido já estavam esgotados, e nessa hora em me dei conta do tamanho do monstro criado em volta deste filme-evento.

Há algo de muito poderoso em "O Código da Vinci". A ferida tocada por Dan Brown é profunda demais, e isso a torna relacionável por qualquer um que tenha nascido no planeta Terra nos últimos dois mil anos. Pouco importa se é fantasiosa ou não - o fundamental é que seja fantástica, pois sua principal característica é o mínimo de base no terreno da realidade. A "Santa Ceia" de Leonardo da Vinci está pregada em cima da mesa de jantar de quase todas as casas do país, e é o fato de o mistério estar "logo ali" que torna tudo tão fascinante - a vida inteira ouvimos falar de Maria Madalena, e que ela deixe de ser a prostituta que pensamos para se tornar a verdadeira mãe da Igreja Católica é uma jogada de mestre. Isso tudo, no entanto, independe do suporte em que estas idéias são veiculadas. Não se cobra de Dan Brown o gênio literário: mesmo que escreva mal (isso esse colunista não pode afirmar, fica na cota dos amigos que leram e me informaram), sua tarefa é a de trazer o espetáculo para dentro de um livro, e não atrapalhar seu desenvolvimento, pelo contrário, facilitá-lo, deixar evidente o caráter espetacular do espetáculo. Isso é tudo o que Ron Howard e sua incompetência absoluta não conseguem fazer. Era muito fácil tirar um filme assistível de "O Código da Vinci", mas chega ser fisicamente doloroso assistir certas passagens da adaptação. Um material tão transgressor e um tratamento tão careta: a primeira seqüência do filme, por exemplo, quando o curador do Louvre é perseguido e assassinado dentro do próprio museu, é um festival de como tirar toda a emoção de uma cena que, por si só, já é eletrizante. Não há o mínimo esforço para fazer os personagens existirem enquanto tais, e Robert Langdon talvez seja o herói de blockbuster com o menor carisma da História (o mesmo servindo para a heroína Sophie Amelie Poulain). Em menos de 30 minutos já sabemos exatamente quem será quem nesse falso quebra-cabeças, e mesmo aqueles que já leram o livro e sabem o final se espantariam com o quão pouco apoteótico ele é. Existe pelo meio um Paul Bettany, um Jean Reno, um Ian McKellen, mas o filme não concede nenhum momento para que esses três grandes atores respirem. Resta a impressão de que algo importante passou discretamente por aquela tonelada de bobagens e efeitos especiais duvidosos, e na última cena, apenas na última, o poder de "O Código da Vinci" se encontra com uma representação imagética à sua altura. Mas aí já é tarde demais. Saio do filme com a triste sensação de que os milhões de espectadores que assistirão o filme pagarão por um espetáculo que não existe, mas mesmo assim se darão por satisfeitos. Vai ver é por culpa deles mesmos: ninguém mais cobra qualidade do entretenimento, é preciso apenas que ele exista e seja exibido regularmente num cinema perto de sua casa ou num shopping que tenha estacionamento seguro - e com um pouco de sorte, o trânsito não estará impedido por algum ônibus queimado pelo caminho.

E-mails para o colunista: rod_ol@yahoo.com.br

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