Faz tempo que as pessoas minimamente dotadas de capacidade de análise sabem que nosso sentido de nação e de cidadania é precário, se é que existe, em algum nível, tirantes os nossos arroubos de maiores centroavantes do mundo.
Tampouco é novidade que o macunaímico povo brasileiro carece cronicamente de ídolos em que pudesse se espelhar, em modelos de retidão de caráter, de respeito à coisa pública. E sem ídolos não pode haver civilização, gostemos ou não da idéia.
Cientistas políticos, sociólogos, antropólogos, psicólogos, psicanalistas, psiquiatras forenses, juristas, pedagogos e perus de roda de plantão, feito eu, já trançaram, da casa grande à senzala, um alentado balaio de teses, antíteses e sínteses a respeito.
"Venho de três raças muito tristes", cantavam Vinicius de Moraes e seu parceiro Toquinho, já nos anos 70. "O brasileiro herdou de Portugal essa tendência à corrupção, ao clientelismo, ao fisiologismo" - também é frase fácil nas rodas onde se discute o assunto.
Igualmente, é comum ouvir:
"Enquanto nação, jamais conquistamos coisa alguma, porque ganhamos de presente a abolição da escravatura (que "abolição"!), a independência (qual?), e a proclamação da república (hoje ré pública...) serviu mesmo foi para implantar a tradição golpista, por isso não temos prática de luta, jamais derramamos sangue brasileiro por causa nobre alguma, como tantos países hoje desenvolvidos já precisaram fazer, o que lhes deu consciência da importância da paz e do bem-estar social, porque o preço pago foi alto".
E por aí vai.
Estamos anestesiados, sonados como um boxeur que já apanhou durante 12 assaltos mas cujo cérebro, de tão acostumado a tomar pancada, desacostumou-se de enviar a ordem para que os joelhos se dobrem e o corpo desabe para propiciar o nocaute que livraria do massacre o corajoso lutador. Só que no nosso caso já estamos na lona e o juiz já iniciou a contagem fatal faz tempo.
Por mais que seja desesperador, mensalões, sanguessugas e PCC podem ainda não ser o fundo do poço. Feito um fragilizado adulto cuja adolescência malresolvida não lhe permite perdoar os pais e tornar-se dono e senhor de seu destino, limitamo-nos a seguir em busca de culpados, de heróis e de salvadores da pátria. Mas eles não existem. A frase "Infeliz do país que precisa de heróis", do famoso dramaturgo alemão Bertolt Brecht, perdeu, para nós, a condição de sábio alerta. Virou só mais um clichê.
A barbárie chegou a um ponto tal que até um bombeiro foi assassinado, em São Paulo, durante as recentes e trágicas manifestações do crime organizado. Num país menos imbecilizado, esse fato teria tudo para tornar-se grande bandeira de luta, o emblema do chega, do não dá mais, do é agora ou nunca, do encontramos o limite. Bombeiros são os profissionais mais queridos do Brasil porque, no imaginário popular, simbolizam o Bem, o socorro divino, a doação, a utopia da vitória da vida sobre a morte.
E nós, ó, nem tchuns.
"Quem não ouve conselho ouve coitado", ensina a sabedoria popular. Pois é nisso que estamos incorrendo, ao vermos esgarçar-se o tecido social brasileiro, nossas principais instituições bichadas, apodrecidas. Na falta de ouvir bons conselhos, e na falta também de levarmos a sério a frase de Brecht citada acima, estamos hoje vivendo o horror do quadro que fez o dramaturgo alemão cunhar mais uma de suas máximas: "Do rio que a tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem."
E, já que estamos a citar gente brilhante, aí vai mais uma, esta do poeta gaúcho Mário Quintana, a propósito de seu centenário de nascimento, comemorado este ano: "Todos esses que aí estão/atravancando o meu caminho/eles passarão/e eu passarinho."
Bombeiro é passarinho, gente. Assim já é demais.
Acordaremos a tempo? Só quem sobreviver, verá.
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