Vitória (ES), edição de 31 de maio de 2006    
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Autodestruição
Em "X-Men: O Confronto Final", a série dos mutantes se vê literalmente diante do fim



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


Tudo o que se esperava antes da projeção de "X-Men: O Confronto Final" eventualmente acaba se confirmando à medida que o filme avança. Tão taxativo quanto é este adendo no título da insígnia mutante é a certeza de que não, este não será um confronto que encerre a série. Talvez não mais com a formação completa (a próxima aventura será um filme somente sobre Wolverine), mas ainda ouviremos por muito tempo o barulho da gangue-do-bem formada pelo Dr. Xavier. Todos os novos personagens que se esperam de um novo filme da série estão lá, efeitos especiais idem. A diferença na direção também fica evidente muito rápido. Só a primeira cena de "X-Men 2", onde o azul Noturno passava por toda segurança da Casa Branca até chegar ao presidente dos Estados Unidos usando apenas sua habilidade de desaparecer no ar, já é mais emocionante e cinematograficamente melhor articulada que todo "O Confronto Final": tendo realizado nos dois primeiros filmes as maiores adaptações de quadrinhos para o cinema já feitas, Bryan Singer largou os X-Men para se dedicar ao novo Superman. Deixou o fardo de seguir uma série duplamente bem sucedida (como vendedora de ingressos e pipoca e como obra de arte sintonizada com seu tempo) para Brett Ratner, de bombas como "Dragão Vermelho" e "A Hora do Rush". Porém mais forte que essa guinada prioritariamente comercial que fez vir a reboque de um diretor mediano várias concessões desnecessárias e construções narrativas bastante frágeis, mais forte que isso é o espírito político inquieto e desafiador que permeia toda a idéia da raça de mutantes e dos X-Men, e que não é esquecido em "O Confronto Final" - a instabilidade de Ratner talvez tenha sido até benéfica, pois a falta de consistência no desenvolvimento das propostas do filme acabam por deixar nele algumas pontas soltas positivamente incômodas.

  
Foto: Divulgação
  
A primeira delas diz respeito diretamente ao grande mote deste novo filme. A indústria farmacêutica americana encontrou a fórmula daquilo que considera a cura para as deformações no gene X. Um mutante que tome a milagrosa vacina deixa de sê-lo instantaneamente. A fonte deste antídoto não é outra que não a própria raça para qual será ministrada: um menino mutante cujo poder é justamente o de "desmutantizar" todos aqueles que se aproximem dele. As complicações vindas a partir desse fator revolucionário ficam muito claras na cena em que o Dr. Hank McCoy (mais conhecido como o Fera) trava contato com o menino, e num cumprimento que trocam vemos sua mão antes peluda e azul se transformar numa mão com cor e formas humanas. Fera é o representante de sua raça no governo americano, um diplomata ativista dos direitos mutantes, mas mesmo ele não consegue evitar o sorriso maravilhado ao ver parte de seu corpo sair da condição de exceção e integrar, mesmo que momentaneamente, a regra. Os X-Men sempre foram a representação extremada de algo com o qual o mundo contemporâneo precisa lidar cada vez mais: a segmentação social em minorias cada vez mais isoladas e sujeitas às intempéries da relação tensa e explosiva com as maiorias. Nos dois primeiros filmes essa representação sempre se estabelecia a partir da dubiedade desse caráter de minoria: ao mesmo tempo que são subjugados e humilhados pela maioria humana, os mutantes, como nenhum outro grupo minoritário, tinham na razão de sua diferença uma força de combate que aniquilaria os opressores - daí a oposição entre o pacifismo do Dr. Xavier e a disposição para o confronto de Magneto, e também o modo como a presença humana nunca foi realmente relevante nos filmes da série, pois eles sempre tratavam de um duelo entre facções diversas do mesmo grupo de mutantes. Ainda que catalisadores desta vacina milagrosa, os humanos no terceiro filme têm seu papel ainda mais reduzido. É nos mutantes, e apenas neles, que estão todas as chances de ascensão ou destruição dos X-Men.

A possibilidade de cura instala um problema ético em "O Confronto Final", que passa batido por Brett Ratner, mas cujos desdobramentos no interior do filme são grandes demais para serem ignorados. Estando diante daquilo que poderia retirar os anos de segregação racial das costas de milhares de mutantes, diante daquilo que os reintegraria a uma sociedade que antes os rejeitara, permitindo um tipo de relação com o próximo que os poderes especiais talvez nunca permitissem, muitos são aqueles que se apresentam voluntariamente para tomar a tal vacina. É bem verdade que a maioria renega esta saída fácil, e assume a defesa de uma condição que não é meramente física, nem muito menos uma doença medicável, mas que corresponde à própria existência desses seres mutantes não enquanto inumanos, mas como um dos espectros possíveis dentro da experiência humana. Mas, ainda assim, toda vez que em "O Confronto Final" um mutante se depara com o momento em que perde sua identidade anterior e imediatamente adquire uma outra, o espectador se depara com perguntas de difíceis respostas: vale a pena negar sua origem apenas para se adequar melhor a um grupo social majoritário? Se houvesse um mecanismo qualquer que tornasse os pretos brancos, os homossexuais heterossexuais, as mulheres homens, quantos seriam aqueles que optariam pela mudança? Ratner dá um tratamento apaziguador tanto aos que escolhem deixar de ser mutantes quanto aqueles que se arvoram ainda mais na defesa de sua existência, mas que já tenha ecoado pelo filme uma questão tão delicada como essa parece ser o começo de um caminho que desaguará na exposição da inviabilidade dessas tensões múltiplas, entre opressores e oprimidos, e especialmente no interior deste último grupo.

É aqui que entra em cena uma força capaz de destruir tudo em "O Confronto Final", até mesmo o próprio filme. O retorno de Jean Grey, depois de sua suposta morte no final do segundo episódio, toma proporções desmedidas em sua encarnação da Fênix Negra - a face oposta de uma personalidade que tem mais poder do que todos os outros mutantes da história. Suas duas grandes demonstrações de força são também os dois maiores momentos do filme: a face deformada e as veias cada vez mais aparentes e assustadoras de Famke Janssen são o epicentro de um terremoto que abala literalmente tudo o que está em volta, desde os personagens envolvidos na tentativa de controlar aquela explosão de fúria até mesmo a própria materialidade do filme. Como um atirador implacável, a Fênix vai eliminando todos aqueles que se colocam em seu caminho, sejam eles seus defensores ou seus adversários. A própria idéia de dois lados fica alterada diante de sua presença, pois não temos mais humanos contra mutantes, Xavier contra Magneto, Wolverine contra Fanático, tudo o que existe agora é a Fênix contra o mundo inteiro, e é bem possível que ela ganhe. "O Confronto Final" assume essa personagem fantasmagórica com devoção total, e pouco se importa que no meio do caminho ela seja responsável pela morte de vários mutantes importantes - sua insanidade é de tal modo abraçada pelo filme que, por um momento, até pensamos que ele realmente irá acabar simplesmente porque todos os protagonistas serão mortos pela Fênix e não sobrará mais ninguém para continuar a história. Síntese de uma idéia de poder que se interessa apenas em acumular forças mas não em compreender o mundo em que se insere, sabendo distribuí-las de maneira equilibrada, a Fênix está para "X-Men: O Confronto Final" como o inverno nuclear esteve para a Guerra Fria, ou como a ameaça sempre presente de um conflito de proporções apocalípticas está para a relação atual entre Ocidente e Oriente. É o símbolo de uma era que não soube lidar com suas diferenças internas, e que no acúmulo de tanta vontade de poder criou uma força de raízes humanas (e por isso falíveis) que tem a capacidade de destruir sua própria fonte geradora, a humanidade. É claro que os X-Men seguirão em frente, e é claro que o final alardeado é apenas um novo começo. Mas será difícil esquecer o fantasma da Fênix e sua disposição, nada falsa, de realmente dar cabo de tudo isto.

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