Todo mundo aplaudiu a afirmação do governador paulista Cláudio Lembo de que "a elite branca é perversa e má". É a segunda vez que um pelego da ditadura sai da parede atirando para o alto. Em 1975 o deputado arenista mineiro Francelino Pereira também entrou para a História com a pergunta "Que país é este?", dita num rompante de autodefesa diante da pressão de repórteres que cobravam coerência da ditadura no início da abertura política.
Não se pode esconder o sol com a peneira, negando que haja um confronto diuturno e explícito entre policiais x bandidos. Examinando friamente a crise da segurança pública, pode-se dizer que a doença é crônica e teve um pico de febre em São Paulo. O confronto pode amainar, mas permanecem as causas que o provocam. A crise de segurança é um reflexo de algo maior.
A raiz da crise é a brutal desigualdade em favor das minorias que "desde Cabral", segundo Lembo, mandam no país, submetendo a maioria à miséria. O presidente Lula tem consciência disso. Por fazer média entre os interesses dos dois lados está sob fogo cruzado. Não é o único governante na mesma situação.
No âmbito da segurança pública, o confronto não se dá apenas entre dois lados. Há uma terceira força em ação. Não se sabe sua real dimensão, pois age sob disfarces em ambos os lados. O fato evidente é que os detentores do Poder legal estão com dificuldades para exercer o Poder real. Quem manda efetivamente são os portadores de armas.
"A lei está fraca", disse-me um PM, queixando-se de que os juízes protegem os direitos dos infratores. Para esse policial-militar, o ideal seria que a Justiça protegesse os defensores da lei, no caso a Polícia. Estamos no limite de criar uma ditadura policial para garantir um sistema político-econômico insustentável.
A sociedade, perplexa, busca um caminho mais equilibrado. Sente que é preciso criar um novo modelo que leve em conta a gigantesca massa de excluídos, cerca de um terço da população humana, situada abaixo da linha da pobreza. Por isso faz sentido o gesto extremo dos bolivianos por uma melhor remuneração do seu gás natural*.
Sim, é preciso liberar recursos para os que estão por baixo. De onde retirá-los? Da parte de cima, onde há uma sobra considerável. Aí está a dificuldade. O confronto eleitoral que se avizinha torna mais agudas as contradições, as queixas e as cobranças. Para piorar as coisas, neste momento a crise da segurança pública se comunica dramaticamente com a crise do setor agrícola, que está jogando mão-de-obra na rua da amargura.
"A crise do campo atingiu as cidades e vai contaminar todas as atividades econômicas", alertou o vice-presidente da Federação da Agricultura de Santa Catarina, Enori Barbieri. Segundo ele, a crise é de renda, ou seja, a maior parte dos produtos agrícolas não alcança os preços mínimos fixados pelo governo. Seria melhor dizer: a crise é de mercado. Ou será de governo?
O buraco é ainda mais embaixo. Não há governo que garanta indefinidamente um modelo econômico injusto. Aparentemente, chegou ao limite o processo de transferência de renda da agricultura para o setor urbano, sobretudo o financeiro, que açambarca a maior parte dos recursos gerados pelas atividades econômicas.
As medidas oficiais esperadas/prometidas para esta quinta-feira (25) tentam dar uma resposta aos agricultores inquietos por causa de dívidas impagáveis a curto prazo. Em linguagem popular, os produtores estão com um pepino e os governantes com dois abacaxis, pelo menos.
Em suma, há na base da economia uma crise de liquidez que começa a se refletir nos indicadores. Estes se agitam também por influência do clima eleitoral interno e de fatores internacionais. Tudo indica que vem aí um solavanco violento.
A necessidade de mexer na torneira do crédito (rural, para começar) coloca os gestores da política econômica numa sinuca ainda mais terrível porque do outro lado da mesa está ninguém menos do que a "elite branca", criticada por Cláudio Lembo.
* O presidente boliviano Evo Morales fez todo aquele barulho para depois a YPFB pedir apenas 61% de aumento no preço do gás natural. Poderia ter evitado o desgaste solicitando uma consultoria à Companhia Vale do Rio Doce. Em 2004 a empresa brasileira impôs aos seus clientes um aumento linear de 71% nos preços do minério de ferro e (agora) acaba de botar mais 19% em cima.
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