Dominados pela sede de poder





Rogério Medeiros

Ao entregar a cabeça do deputado estadual Cláudio Vereza ao sacrifício, o PT confirma a sua nova cara no Espírito Santo. De um partido voltado pela cobiça de poder. Abdica do seu projeto revolucionário e veste roupa burguesa para conviver harmonicamente com a elite política do Estado.

Coloca em uso todo o instrumental necessário a alcançar metas de poder. Quando um legítimo representante do trotskismo se vale do parlamento para alimentar a sua corrente política em detrimento do próprio ideário de combate ao parlamento burguês, é sinal claro de que não há mais ideologia a preservar.

É o que ocorre na Câmara de Vereadores de Vitória, onde o trotskista Alexandre Passos zela pelas causas das elites da Capital. Dá também uma de FHC: esqueçam do meu comportamento anterior. E elege como meta uma reeleição à presidência do parlamento burguês. A linha de frente da sua corrente está toda ela em cargos comissionados da Câmara -ajudando, naturalmente, neste zelo pelos cânones burgueses.

Do livre contraste de idéias ao livre jogo de interesses. É o que faz também o ex-revolucionário João Carlos Coser na prefeitura de Vitória. Cooptou a Câmara distribuindo cargos em comissão entre os vereadores e empregando os candidatos a vereador derrotados. Substituiu a salutar discussão das idéias pelo fisiologismo, de que a direita serviu-se sempre para dominar a política. E entrou de cabeça e corpo no estéril jogo do poder.

Foram-se pelo ralo os discursos de que uma sociedade socialista é caracterizada em relação à sociedade capitalista pela coletivização dos meios de produção, um hábito que se registrava, até há pouco, nos encontros do partido. No Espírito Santo vicejou sempre o PT mais revolucionário de todos. Mas hoje esse mesmo PT revolucionário negligencia diante da internacionalização da economia do Espírito Santo promovida pelas multinacionais que aqui se instalaram.

A meta agora é reeleger Coser em 2008 e prepará-lo para suceder Paulo Hartung em 2010. Trocou-se as bíblias marxista e trotskista pelo ideário burguês de que o que vale é o poder. Diante dessa radical mudança, só resta saudar a deputada Brice Bragatto, que deixou o partido pelo seu ideário revolucionário. Continua mantendo os seus antigos confrontos com a classe dominante do Estado. O socialismo permanece com ela como sendo o modelo ideal de sociedade. Os colegas de antes, como diria Norberto Bobbio, porém, estão dominados pelos demônios do poder.

Fragmentos
1 - O deputado Neto Barros, que instalou a oposição na Assembléia Legislativa, ao ingressar nela por força da morte do deputado Edson Vargas, e nessa condição conheceu o braço pesado do governador Paulo Hartung, já está sob proteção política do ex-governador Max Mauro.

2 - Os votos que o governador mandou tirar dele na sua base eleitoral, que é Baixo Guandu, lançando seis candidatos a deputado estadual, vão ser compensados pelo ex-governador em Vila Velha. Preservar Neto na Assembléia passou a ser uma meta do ex-governador.

3 - Realmente Neto deu um corte numa Assembléia governista. Não por mérito político e muito menos por preparo parlamentar. Mas pelo ineditismo que levou para a Assembléia. De instalar um processo oposicionista. Só. Ele ainda é bastante verde, mas carrega consigo a coragem que caracterizou a sua família na região do Rio Doce.