Universidades em foco




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

As universidades voltaram ao foco da agenda nacional, logo depois que as federais terminaram, em dezembro de 2005, a maior greve da história da categoria dos professores universitários. E, também, depois que veio à público o problema da crise financeira da PUC de São Paulo.

Gabriel Cohn está correto em afirmar que o debate sobre o lugar que as instituições de Ensino Superior, públicas e privadas, devem ocupar na sociedade brasileira, tornou-se inadiável. Com efeito, o essencial é que "a universidade ainda não logrou ser vista pelo conjunto da sociedade como algo seu, como uma instituição da sociedade" (Folha de São Paulo, 22/01/06).

Vem daí o problema do aumento do domínio das universidades privadas no ranking nacional e a queda, em geral, da qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão nas universidades. Com as tradicionais exceções que confirmam a regra.

Queda da qualidade em várias dimensões. Qualidade científica no sentido estrito. Qualidade como relevância e aplicabilidade. E qualidade como impacto na própria educação. Tanto que, nos últimos anos, verifica-se que o país avançou no ensino fundamental e no ensino médio. Mas o mesmo não se pode falar do ensino superior.

Tudo isto, quero repetir mais um vez, tem a ver com a questão da centralidade do professor na educação, bem como com a questão do financiamento do ensino superior e com a questão da autonomia e da avaliação das universidades.

A questão central, mesmo, é a da valorização social e profissional do professor. É ele o centro do processo educacional e sempre será, por mais que se avance em termos de tecnologia da informação. Entretanto, desde a década de 80 do século passado, o professor perdeu importância social. E passou a ganhar muito mal.

Esta é a questão central. Mas é também central a questão do modelo de gestão das universidades. Este modelo ainda conserva as suas origens no modelo da França napoleônica, ou seja, o modelo único (no sentido de que todas elas devem englobar o " universo" do conhecimento). Além disto, é um modelo baseado fundamentalmente na idéia da especialização do conhecimento e da fragmentação do saber, traços da chamada Era Moderna, que se esgotou no último quartel do Século XX.

Com isto, como tem provocado Marilena Chauí de forma instigante, a universidade brasileira vai formando incompetentes sociais e políticos (outra vez, com as exceções de sempre).

O corolário desta situação , nas universidades, é que o Poder, nelas, é resultante de uma correlação de forças com três segmentos principais: o poder burocrático; o poder sindical, e o poder acadêmico. Com o poder dominante sendo o poder burocrático - que, por definição, é um poder conservador e defensor do "status quo" .

Por tudo isto, é realmente inadiável o debate da questão da qualidade política da nossa universidade. Vale dizer, a sua importância como instituição da sociedade, a sua relevância no contexto social.

Neste contexto, o debate sobre o modelo de universidade deve ser aprofundado, em prol da diversidade e não do modelo único.

Também deve ser encarado o debate sobre o financiamento das universidades públicas. Hoje, no Brasil, os pobres pagam pela educação dos ricos e da classe média, mesmo com a criação dos sistemas de cotas. Como bem afirmou Gláucio Ary Dillon Soares, o setor público não tira dinheiro do ar e os brasileiros têm uma visão até mística do Estado, ao defenderem radicalmente a idéia de que a universidade tem que ser pública, gratuita e de qualidade. Se um gasto é criado, alguém tem que pagar por ele (Folha de São Paulo, 22/01/06).

Depois de inúmeras greves, nos últimos 25 anos, nas universidades públicas, e da crescente crise da própria universidade privada (como é o caso da tradicional PUC de São Paulo), está na hora de mudar rumos, ajustar percepções e virar a página das verdades absolutas. Não é hora para "donos da verdade". Neste debate, precisa-se um pouco dos iconoclastas.