Vida de Imigrante - Carnaval na Neve




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Esse ano o carnaval chega em fevereiro, como manda a tradição, reinando absoluto sob um calor que não vemos há 40 anos, informa o noticiário. No Brasil, claro. Aqui o que temos é um frio que não se vê há 40 anos, e carnaval é o nome de uma linha de cruzeiros marítimos.

Falo do frio no norte, onde nevascas fecham aeroportos e interditam estradas. Miami se dá ao luxo de ser indecisa, sempre na dúvida para que lado pender. Tem dias frios, porque gostaria de se identificar com as regiões americaníssimas onde as estações do ano são bem definidas e as folhas das árvores caem no outono.

Em Miami as temperaturas mais baixas são breves, entremeadas de dias muito quentes, porque a cidade se divide entre esses dois mundos distantes como dois planetas. Tal como seus habitantes, em sua grande maioria imigrantes latinos, Miami tem a presença física acima do Equador, mas a alma, o jeito, o coração, estão no hemisfério sul.

Também sua vasta leva de refugiados econômicos, despatriados políticos, e aventureiros indecisos, vive e respira os ares do primeiro mundo, ganha e gasta em dólares, mas suspira eternamente pela terra ensolarada que ficou para trás. Coração dividido, hispano ou latino, sem saber para que lado torcer.

Voltar talvez seja a meta de todos, mas apenas quando ficarem ricos, ou famosos, ou ambos. Isso para os que sonham alto. Os mais modestos só querem ter dinheiro suficiente para impressionar a família, ou fazer inveja nos amigos, ex-vizinhos e ex-colegas. Censurar quem há de?

Enquanto o milagre da transformação da água em vinho não acontece, vão ficando, que a vida é curta e as passagens muito caras. Aqui vão fincando raízes, fortalecidas pela chegada dos filhos que logo vão também criando suas próprias raízes, freqüentando escolas e se estabelecendo na vida.

Voltar vai se transformando num sonho cada vez mais brumoso. Do outro lado do Equador, a família vira parente, os amigos viram conhecidos. Assim mesmo, o guaraná e o feijão tropeiro continuam presenças obrigatórias nas mesas de domingo, e as TVs sintonizam nos canais brasileiros.

Imigramos pela metade, já disse um filósofo de plantão. Imigrante que se preze vai ao norte conhecer a neve, e volta correndo porque em fevereiro, procurando bem, é possível achar carnaval em Miami.