Expandido e digitalizado, o filme pode ter superado seus tradicionais expedientes de produção, fugido a todas as convenções narrativas, mas ainda não escapou do lugar da história. A sala de cinema, este templo em torno do qual se ergue a instituição cinematográfica, limita sobremaneira nossa experiência audiovisual, definindo um certo regime de fruição que se propaga por outros sistemas sócio-informacionais.
Aprendemos a mover a câmera, mas o dispositivo projetor continua parado. Não importa quão não-linear seja o enredo: o filme começará no apagar das luzes e terminará tão logo sejam acesas. Não importa quão excêntricos sejam os takes: eles serão invariavelmente conformados pela perspectiva artificialis da câmara obscura. Assistimos o filme da mesma forma que, há seis séculos, contemplávamos Madonnas e Santas Ceias.
Mesmo agora, quando as estruturas de distribuição e exibição se tornam numéricas, encerrando a metamorfose que começou com a pós-produção computadorizada, a sessão de cinema preserva uma essência anacrônica. Contra o fluxo audiovisual inconstante e ininterrupto dos meios eletrônicos - cada vez mais onipresente, na vitrina dos magazines e no visor dos celulares -, ela oferece duas horas do mais puro melodrama.
A sala de projeção cria um intervalo no espaço-tempo comprimido, uma pausa no tráfego de corpos e dados. É um lugar em que as pessoas estacionam, desligam seus pagers e portáteis; desconectam-se do mundo sempre-conectado e se rendem ao tédio incipiente.
Conforme a película se torna obsoleta, e os filmes passam a ser lançados quase simultaneamente no circuito cinematográfico e no mercado doméstico, a sala de projeção é um dos poucos denominadores que ainda restam para garantir a especificidade do cinema. Mas, longe de ser uma trincheira romântica, ela funciona cada vez mais como um corredor de consumo. Sua arquitetura é dotada de sobrenaturais tecnologias do conforto, que buscam mortificar a presença humana (do eu, do outro) e engessar a experiência cinematográfica, transformando-a numa commodity que esgota todo o potencial do filme.
Os impasses provocados pelo cinema digital refletem essa tendência. O novo sistema só interessa à Indústria na medida em que esta precisa decidir qual padrão deve ser adotado e quem é que vai pagar a conta. As principais capacidades do meio são negligenciadas, em nome da integridade estéril que a instituição conquistou com o passar dos anos.
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