Licença, caro Oscar. Mas hoje é a minha vez por essas páginas.
Alguém reparou no desfile da Mangueira no segundo dia de festa no Sambódromo? Não?! Pois os minutos antes do início do cortejo foram históricos.
Por conta de um carro alegórico quebrado que atrapalhou o desfile da Porto da Pedra, o que fez o carnavalesco Cahê Rodrigues se acabar em prantos, o desfile da Mangueira sofreu um pequeno atraso.
Acostumada a mostrar apenas o desfile, a TV Globo, emissora responsável pela transmissão, teve de virar suas câmeras para a concentração da escola. Lá, todos reunidos, aglomerados numa pequena área, membros da comunidade da Estação primeira, estrangeiros e visitantes puderam conferir um momento único no carnaval carioca.
Enquanto o carro da Porto da Pedra passava sozinha em meio a avenida, lá no canto a Mangueira fazia nascer choro na cara de seus seguidores. Como a espera para o início do desfile ainda ia durar uns 10 minutos, a solução foi cantar um samba. Nada do samba-enredo da escola daquele ano, mais um pasteurizado, como os das outras escolas. O que se viu foi algo quase impensável no carnaval oficial da cidade.
Os carnavalescos, contra toda a lógica que impera no desfile oficial, entoaram a magistral "Exaltação à Mangueira", composição de Enéas Brites da Silva e Aloísio Augusto da Costa, que está imortalizada pelos versos "Mangueira teu cenário é uma beleza/ Que a natureza criou, ô...ô.../ O morro com teus barracões de zinco,/ Quando amanhece, que esplendor,/ Todo o mundo te conhece ao longe,/ Pelo som teus tamborins/ E o rufar do teu tambor, Chegou, ô... ô.../ A mangueira chegou, ô... ô...". É o hino da Estação Primeira de Mangueira.
A arquibancada entrou em transe, a televisão não sabia o que fazer, não havia letra na tela, e os comentaristas mal sabiam falar ou tentar explicar o que estava acontecendo. Nessas horas o coração bate mais forte, os olhos fecham e alegria ultrapassa as fronteiras dos 80 minutos de desfile.
Mas onde está a importância histórica disso?
Exaltação à Mangueira foi composta pela dupla durante um intervalo de almoço. No ano de 1956, representaria a escola na voz de Jamelão. O fantástico reside no fato de que músicas assim, de exaltação, quase não existem mais no carnaval. É proibido tocar samba de quadra (ou de meio de ano) durante o carnaval. E isso em todas as escolas.
E a reclamação já é velha, permanecendo atual.
Veja o que diz uma matéria publicada pelo Jornal da Tarde, numa segunda-feira de Carnaval, em 23/2/76, sob o título "Carnaval? Acabou."
"_ Eu não culpo ninguém não - diz Angenor de Oliveira, o Cartola, de 67 anos que ele diz tranqüilos, mansos e realizados.
Há mais de 20 anos sem compor para a sua escola - a Estação Primeira de Mangueira, que em 1929 ajudou a fundar - Cartola, fala pausadamente:
_ Isso tudo é esculhambação. Não tem nada a ver com a gente. Não dá mais para se entrar numa escola, em qualquer escola. Há uma invasão, uma falta de autenticidade, um cinismo. Isso virou é uma indústria e cada um quer é levar o seu. Todo mundo quer é ganhar. O grãfino quer sair na escola para ver sua fotografia nas revistas - agora é moda -, o intelectual também, a madame também e com isso o sambista perdeu o seu lugar. Aqui mesmo, na Mangueira, já vi ritmistas revoltados porque cobraram ingresso dele na porta. Logo dele, que sai na escola, se mata por ela, passa até fome para comprar a fantasia e desfilar. E com isso o samba vai perdendo, as escolas vão perdendo.
Para Cartola, as Escolas estão erradas em tudo - até no plano social:
_ É a vaidade que mata. É só olhar: o Palácio do Samba da Mangueira, o Porteleão, da Portela, as instalações de som mais complicadas do que as de boate, tudo, tudo. Você pode imaginar quando entra de dinheiro num fim de semana na Mangueira ou na Portela? E para onde vai tudo isso? Para ao luxo, para o nada. O verdadeiro sambista vive pelo carnaval o ano inteiro. Então, porque não fazer algo por ele? Porque não usar um pouco desse dinheiro que entra por causa do sambista para melhorar a sua vida, a dos seus vizinhos, do morro onde ele mora? Beleza não é só luxo e o samba verdadeiro não aparece só com lantejoulas.
(...)
Para Ismael Silva - fundador da primeira escola de samba e compositor cujo sucesso aumenta a cada dia - tudo já acabou:
_ Há muitos anos - disse ele em uma entrevista, - que o único lugar onde não se vê samba - não falo de coreografia, mas de samba mesmo - é nas escolas de samba."
E quer saber o que diz o sambista Nelson Sargento em pleno 2006?
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Então, quando ouvir um samba assim durante o carnaval, cante junto. Pode ser a última vez.
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