Vitória (ES), edição de 08 de março de 2006    
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Onde está Woody?
"Ponto Final", um jogo em que Woody Allen reforça a idéia de que a arte é maior que o artista



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  
Ponto Final é o basta de Woody Allen
Havia algo de muito estranho na campanha de divulgação de "Ponto Final - Match Point" (em cartaz no Estado). No trailer exibido nos cinemas, víamos os trechos de cena passarem, umas frases de efeito entre um e outro, e lá no último segundo, bem rápido, aparecia "escrito e dirigido por Woody Allen". No cartaz de lançamento do filme, a falta de destaque era ainda maior: o único lugar em que o nome do diretor aparecia era lá no cantinho dos créditos, numa letra miúda quase ilegível. O diretor está longe de ser um dos mais vistos atualmente (seus últimos filmes patinam na bilheteria e mal se pagam), mas é certamente um dos mais "conhecidos", em tudo que essa fama alheia à sua própria obra tem de bom e de ruim. Woody Allen é uma marca, provoca reações, interesses, e o fato de a publicidade de seu novo filme ignorar essa marca soa quase descabido.

Entramos em "Ponto Final" e essa impressão vai se desfazendo: é capaz que nem seja mesmo um filme de Woody Allen, ou senão onde estaria ele? Há um outro mundo em cena. Não a Nova York cosmopolita, mas Londres, a Inglaterra, seus extratos sociais rígidos; não um círculo de intelectuais e profissionais liberais discutindo problemas existenciais de alcova, mas ricaços em propriedades campestres discutindo tênis e o mercado financeiro; não é uma comédia, não há piadas, um filme que não se encaixa dentro da obra recente do diretor, uma espécie de retorno ao pastelão com substância do começo de sua carreira. Até o jazz antigo, sempre na trilha de seus filmes, foi substituído pela ópera. E mesmo aqueles que não conhecem bem a carreira do diretor hão de ficar intrigados. A primeira metade do filme é conduzida com uma leveza quase clínica. Somos apresentados aos personagens, vemos e ouvimos suas conversas, acompanhamos seus pequenos dramas, sem sobressaltos, sem desvios. É quase como se ninguém estivesse dirigindo "Ponto Final". Woody Allen está invisível.

Outra impressão que vai se desfazendo. Se existe essa idéia de que não há ninguém por trás daquilo tudo, se quase não nos damos conta da mão que conduz esse jogo, isso é apenas o efeito máximo do exato oposto: há, como nunca, alguém por trás. Se parece invisível, isso se dá porque justamente há Woody Allen em toda parte de "Ponto Final". De todos os pontos de vista possíveis, esse é o filme mais controlado do diretor. Tudo está sob seu domínio, personagens, narrativa, cenários, câmera. Não existem luzes impensadas, sombras casuais, improvisos, frase fora do lugar. É daqueles momentos em que testemunhamos o ápice de um artista: tem, finalmente, o controle pleno de sua arte.

Uma quadra de tênis, a bola passando de um lado a outro da tela, no meio uma rede. A narração do protagonista diz: "o homem que disse que preferia ter sorte a ser bom enxergou profundamente a vida". A bola bate na fita, e a narração reforça que é a sorte, e nada mais, que decide se o ponto é favorável ou contra você. Nesses primeiros minutos está delineado o filme inteiro. Esta tese será confirmada cena a cena, enquanto acompanhamos a escalada social do ambicioso instrutor de tênis Chris (Jonathan Rhys-Meyers), seu casamento com a filha de um milionário e o caso extraconjugal com sua cunhada, uma atriz americana desempregada. As reações de todos os personagens estão meticulosamente arquitetadas, suas personalidades traçadas à caneta. O domínio é tanto, que Woody Allen pode fazer os comentários que quiser com sua câmera, fazendo um passeio por todo o ambiente antes de focalizar seu protagonista (quando Chris está visitando o apartamento que alugará, ou quando chega ao escritório de seu novo emprego pela primeira vez) ou então quando está diante de duas das maiores atrações turísticas londrinas, o Big Ben e a troca da guarda real, e simplesmente corta o relógio e coloca uma grade na frente dos soldados, como que dizendo que ali há alguém conduzindo o olhar do espectador, e que só se verá o que ele quiser que seja visto.

Isso tudo funciona na primeira metade do filme, e se fosse levado a cabo até o final daria num dos filmes mais horrorosos de todos os tempos. Se um artista acredita que finalmente controlou sua arte, o que faz não é arte, é fetiche. Se um cineasta acredita tem o domínio absoluto de tudo o que encena, não é cineasta, é alguma espécie de divindade. "Ponto Final" é o 35° filme de Woody Allen, e a essa altura todo mundo (ele inclusive) já parecia ter uma idéia bem exata e imutável de sua importância e de suas possibilidades. Sua filmografia recente, desde "Desconstruindo Harry", de 1996, se estava longe de ser penosa ou mesmo mediana, já não trazia ruídos ou problemas a sua carreira. A imagem Woody Allen já estava estabelecida. Se fetichista ou semideus são atribuições das quais um artista deve fugir, uma outra deve sempre estar presente, em seus vários graus de interpretação: inconformado. O diretor americano estava confortavelmente localizado na redoma de uma carreira brilhante e da garantia de financiamento para seus filmes, um público não tão grande, mas fiel, o prestígio de uma filmografia maiúscula. "Ponto Final" é seu "basta!". Joga sobre seu filme noções que nunca antes haviam figurado em seus trabalhos, parte para o primeiro filme fora dos EUA, sai de seu mundo habitual. Essa primeira metade do filme funciona como o tributo a sua própria trajetória: um cineasta mais que maduro, inteiro, consciente. A metade final diz o tempo todo que a vontade de pisar em terreno desconhecido não acabou, pelo contrário, está renovada. E é essa vontade, e os caminhos tomados aqui, que fazem de "Ponto Final" a obra-prima que é.

Tudo começa no reconhecimento de que aquilo que se está produzindo, o filme, aquele universo, é maior que a vontade de controlá-lo. Chris era um alpinista social como outro qualquer, ganancioso, um tanto mau caráter, mas sem perder a gentileza, capaz até de ter sentimentos sinceros (sua atração pela amante não parece dissimulação). Um tipo fácil de dominar, previsível. Quando sua amante engravida e Chris vê a possibilidade de perder tudo o que conquistou, instala no filme uma imprevisibilidade gigantesca. Aquilo que parecia domado escapa da jaula, corre livre, é impossível adivinhar seus passos. Allen gosta da dúvida, e não se sente envergonhado em entregar o filme na mão de seu protagonista, ao contrário, o faz de bom grado. "Ponto Final" muda totalmente sua forma de registro. Se antes a câmera estava quase independente de Chris, agora ela é totalmente submissa a ele, e é contaminada pela instabilidade de seu novo chefe. Entramos na montanha-russa do protagonista, quase sempre grudados em seu rosto, e já não existe a menor possibilidade de certeza daquilo que vemos. Aquele prólogo que dizia que a sorte era a coisa mais importante da vida vai ficando pequeno até desaparecer. A sorte joga sim um papel, mas não é propriamente um sentimento, e acima de tudo, não faz parte da constituição do homem, é um fato exterior. E em "Ponto Final", como em toda a carreira de Allen, o que interessa mesmo são as ações e reações humanas. Daí a existir, lá pelo final do filme, um momento de terror quase à moda M. Night Shyamalan: se faz parte do jogo de emoções do personagem, faz parte do jogo do filme. O tabuleiro parece ter sido milimetricamente arrumado, apenas para que se louve a idéia de que, na arte, o divertido mesmo é encontrar as peças espalhadas. Woody Allen chuta o tabuleiro para as alturas, e faz um filme que desdobra por quantos caminhos quiser o espectador. É, que não se tenha mais dúvida disso, um gênio. E ponto final.

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