Vitória (ES), edição de 09 de março de 2006    
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Olhares penetrantes do jornalismo literário



Cristina Moura


  
Foto: Divulgação
  
Gay Talese, um dos ícones da vertente do novo jornalismo

Em 1965, na revista Esquire, Gay Talese escrevia uma reportagem que se tornaria referência no gênero que ficou conhecido como jornalismo literário, novo jornalismo ou nova não-ficção. "Frank Sinatra está resfriado" foi publicada no Brasil sob o título "Entrevista sem sujeito", na revista Imprensa, em 1989.

O sujeito ausente ou desconhecido ao qual se refere a revista estaria associado ao formato do jornalismo literário, que mescla os dois, Jornalismo e Literatura ou vice-versa, numa simbiose que conquista o leitor. Diante de um personagem tão marcante e famoso, Talese se encontrou encurralado. Sua busca por Sinatra acabou se concretizando com observações, ou seja, sem necessariamente entrevistar o cantor.

No prefácio de "Fama e Anonimato", publicado pela Companhia das Letras em 2004 (2.ª edição), Talese explica, em 1992: "Foi mais proveitoso observá-lo, ouvir as suas conversas, estudar a reação das pessoas à sua volta do que me sentar e conversar com ele, caso tivesse me concedido a entrevista".

Mas explica também qual a proposta do "new journalism", gênero tão admirado por uns e repelido por outros: "O novo jornalismo permite, na verdade exige, uma abordagem mais imaginativa da reportagem, possibilitando ao autor inserir-se na narrativa se assim o desejar, como fazem muitos escritores, ou assumir o papel de um observador neutro, como outros preferem, inclusive eu próprio".

A teia do escritor

  
Foto: Divulgação
  
O jornalista Truman Capote recebe nova atenção por conta do filme baseado em sua vida

Não menos famoso, o jornalista Truman Capote enveredou pelo jornalismo literário e ganhou os brios norte-americanos com o seu "A Sangue Frio", que realçou a crueza da violência naquele país. O gênero se comporta tal qual o olhar do repórter, que, na verdade, se transforma em escritor. Ou seria o contrário?

A partir de um elemento, nesse caso um crime hediondo que estaria à margem da imprensa da época, Truman construiu sua trama. A teia, porém, previamente construída com o próprio acontecimento. A fama do livro e a astúcia do jornalista podem ser observadas em "Capote", que parece ter reavivado a senda do jornalismo literário durante as expectativas pelo Oscar 2006.

Philp Seymour Hoffman, que só experimentava pontas e papéis coadjuvantes, pôde brilhar como protagonista e levar a estatueta para casa. Capote com suas peripécias, Capote com seu jeito tímido, mas escrachado em assumir a homossexualidade, Capote dono de artimanhas como repórter. "Bonequinha de Luxo", de 1958 e "Música Para Camaleões", de 1980, ambos coletâneas de contos e novelas, também fazem parte do currículo. Neste último, o autor acha pouco desafiar o jornalismo e explora elementos de ficção.

Saiba mais!

Veja outros livros que adotam o new journalism

"Chico Mendes: Crime e Castigo", de Zuenir Ventura
No começo de 1989, o jornalista Zuenir Ventura foi enviado ao Acre para uma série de reportagens sobre a morte do seringueiro Chico Mendes, considerado pelo The New York Times como "um símbolo de todo o planeta" e até reconhecido pela ONU, mas assassinado em dezembro de 1988. Os textos deram ao repórter o prêmio Esso de Jornalismo.

"Hiroshima", de John Hersey
O livro traz a reportagem clássica de John Hersey sobre a bomba atômica que devastou a cidade de Hiroshima. Trata-se de um retrato de seis sobreviventes da bomba atômica, escrito um ano depois da explosão. Quarenta anos mais tarde, o repórter reencontra seus entrevistados.

"A milésima segunda noite da avenida Paulista", de Joel Silveira
Reúne textos do repórter bem humorado que cobriu a Segunda Guerra a serviço de Assis Chateaubriand, o Chatô. São reportagens, crônicas e entrevistas, traçando um panorama do país na década de 40.

"O segredo de Joe Gould", de Joseph Mitchell Mitchell foi colaborador da revista The New Yorker e considerado um dos maiores jornalistas americanos do século XX. A reportagem, escrita em 1964, conta a história de um homem que vivia como um mendigo, perambulando pelo Greenwich Village, bairro boêmio de Nova York, e planejava publicar um livro, que seria: "História oral do nosso tempo".

 

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