Quando você, apenas articulando os lábios, sem emitir som, pede ao seu filho para dizer a alguma pessoa, ao telefone, que você não está, pode apostar numa coisa: além de estar treinando um futuro mentiroso profissional cujas trapalhadas podem ter alcance inimaginável, você está também dizendo a ele que você não é uma pessoa confiável. E mais: que, na condição seu fã ardoroso, ele tem mais é que sair por aí praticando mesmo esse seu 171 turbinado e azeitado, pois estes são os parâmetros do seu grande herói.
Esta é uma das formas mais comuns e fáceis de ser construir uma pessoa de mentira. E pessoas de mentira formam, é claro, uma nação de mentirosos.
Já se sabe, de velho, que sem ídolos não é possível existir civilização. E também não é novidade, pelo menos para os mais experimentados, que todo ídolo tem os pés de barro, ou seja, um dia deverá desmoronar, para que, passado o susto, o idólatra perceba que já não precisa dele. Ou então que migre para debaixo do guarda-chuvas emocional de outro ídolo, que um dia também poderá ruir.
Para a maioria da grande massa brasileira, necessitada de quase tudo que caracterizaria uma cidadania, os governantes também são considerados heróis, à maneira dos pais. Só que naturalmente suas mentiras têm um efeito infinitamente mais avassalador sobre as mentes do povo. "Se o governante pode, por que eu não poderia?"
No Brasil, as mentiras oficiais, que estão longe de ser novidade, têm sido contudo cada vez mais despejadas, às caçambadas, por sobre a gente. Prova disso é que, segundo recentes pesquisas, o brasileiro mais pobre e mais carente (de pai e de pátria) continua acreditando no caô dos antigos monopolistas da dignidade.
Já não se percebe o esforço para elaborar uma cascata pelo menos mais elaborada que pudesse classificar o loroteiro pelo menos como um mentiroso brilhante, à moda do "rouba mas faz". Hoje, basta um não sei, um não me lembro, ou um eufemismo rasteiro que não se peja de ofender grosseiramente a inteligência da gente.
Bebeu? Bebe? Não, de jeito nenhum. É a verdade da semana. Prevaricou? Prevaricaram? Nada, é apenas o bate-bumbo da elite, a velha direita querendo queimar a imagem de revolucionários. Esta talvez seja, dentre as inumeráveis mentiras da turma do poder, uma das campeãs da falta de respeito para com a inteligência da gente.
Jamais a velha direita, com tantos anos de prática, ousou tripudiar tanto sobre o cadáver da cidadania brasileira. Jamais os banqueiros gostaram tanto de ser banqueiros, por conta dos juros que travam a produção e o crescimento.
Nunca a banca de agiotagem que asfixia o quintal subdesenvolvido do planeta ganhou tanto dinheiro. E ainda assim não se vê, na inteligentzia brasileira, um único projeto, um único plano, uma única voz confiável que desafine o coro dos contentes. É só 171, um 171 de mercado, lustroso, competente, regiamente pago pela sofrida burrinha da Viúva.
E aí vêm a público os áulicos do caô oficial para dizer que estão sendo tomadas tais e quais medidas para evitar "o esgarçamento do tecido social". Ah, o tecido social. Pois é. Pois ele tem a ver com a mentira do pai ao filho, em relação a alguém que está no telefone, mas muito mais com a mentira do "pai do povo" aos seus milhões de filhos deserdados.
Até poucos anos atrás, havia quem defendesse a tese de que quando a violência chegasse à elite a própria sociedade negociaria, entre seus segmentos, medidas mais efetivas para conter a violência. Mentira. Hoje, a roleta russa aponta indistintamente para todos os estratos da sociedade brasileira. E a grande quadrilha que domina a política brasileira há tantas décadas e que conseguiu eleger um suposto esquerdista para presidente da República, em troca de defenestrar-se toda a história política dele (como, em passado recente, já o fizera um sociólogo incensado pela esquerda européia), continua dando cartas e jogando de mão.
O Brasil parece ter virado, em definitivo, a terra do 171 institucionalizado. E se você pensa que já chegamos ao fundo do poço e que agora é hora de começar a subida, não custa lembrar quem são os candidatos à Presidência da República nos quais teremos o "direito" de votar, nas próximas eleições: Lula, Serra ou Alckmin, e, valha-nos Deus, Garotinho.
No momento, a alternativa mais viável parece mesmo ser a de meter o dedãozaço na goela e - bleargh! - digamos, descomer.
É ou não é o país do caô?
|