Vida de Imigrante - Debaixo da Ponte




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Que os nossos pobres moram embaixo dos viadutos, já sabemos. Como também sabemos que muita água tem que rolar debaixo da ponte antes que alguma coisa esperada ou inesperada nos aconteça. Deixa as águas rolar, cantávamos nos carnavais de outrora, em péssimo português mas com muito entusiasmo.

Os desavisados perguntariam, que ponte? E eu vos digo, as pontes da vida são muitas, mas a água é uma só. Agora descobrem que imigrantes também ficam debaixo das pontes. Em Miami, claro, o paraíso de 9 entre 10 latinos. Descobertos pela imigração foram deportados, porque a ponte está desativada e não tem ligação com a terra.

Tudo porque criaram uma lei especial para os cubanos, se forem pegos no mar são deportados, se conseguirem alcançar a terra, podem ficar. Ah, os misteriosos meandros das leis! Mas enquanto as águas rolam em baixo da referida ponte, um processo também rolou na Justiça pleiteando o direito de permanecerem no país.

Essas coisas só acontecem com os cubanos, que têm a força. No caso, uma força de 14 renomados e caros advogados. O juiz, que não por acaso tem nome latino, deu ganho de causa para os 15 invasores. Tarde demais, eles já haviam sido deportados, reencaminhados ao país de origem, de onde dificilmente conseguirão sair outra vez.

Fica então o impasse: a sentença judicial manda o governo americano trazê-los de volta, dando-lhes a acolhida a que têm direito, porque mesmo estando desativada, a ponte em questão é território americano. Os oficiais da imigração extrapolaram suas funções, que não é interpretar a lei mas fazê-la cumprir, e agiram precipitadamente.

Surge aí outro impasse, e esse ainda mais complicado - como tirar os fujões de Cuba e trazê-los de volta? De acordo com as leis de Fidel, ninguém pode deixar o país sem autorização, e sendo mandados de volta, os cubanos foram naturalmente considerados criminosos.

As torcidas se formam, os grupos de apoio e de protesto se agitam. Chega de cubanos em Miami! Gritam esses, enquanto aqueles querem que o governo traga os 15 aventureiros de volta, custe o que custar. Nós, nem tanto ao mar nem tanto à ponte, só esperamos que esse caso não vire outro Elian Gonzalez, o menino cubano que revolucionou toda a América e influenciou as eleições no país.