Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2006    
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Anti-Música e uma Nova Estética Um tema recorrente; uma resposta à Kim Cascone



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas


A criação musical foi pioneira em aceitar inovações digitais - às vezes, contra a própria indústria, como no caso do combo mp3 + p2p. Mesmo antes do aparecimento de tecnologias numéricas, a possibilidade de gravação e síntese já eram realidades incorporadas à composição sonora.

Assim, nada mais natural do que ela também ser a primeira a superar a digitalidade. Ou pelo menos é isso que pensa Kim Cascone, conforme explica em seu "The Aesthetics of Failure". Nesse artigo, o autor mapeia uma emergente "estética da falha" dentro da música eletrônica. Uma trajetória que, segundo ele, começa com o futurismo italiano e John Cage, e termina por desembocar no glitch.

Essa estética seria baseada na exploração do "fundo" sobre o qual a obra se sustenta, um fundo tanto infra-estrutural (o instrumento, o registro) quanto ambiental (a paisagem sonora, o meio de fruição); instâncias que se justapõem hoje em dia, a partir do momento em que uma mesma ferramenta é usada para compor, executar e distribuir, e até mesmo para ensinar música.

O computador implode o circuito de produção, consumo e crítica, se tornando ele próprio o foco dessa nova disposição criativa. Por isso Cascone diz que não mais o meio, e sim a ferramenta se tornou a mensagem.

Mas o que o pós-digital busca não é a simples estetização da ferramenta, a aerodinâmica sistêmica eleita como santo graal pelo design de interface. Pelo contrário, ao consagrar a falha como sua pedra de toque, ele opta por revelar a infra-estrutura, sua perfeição ilusória; buscar ritmo no atrito com a interface, despertar outras possibilidades técnicas.

A falha seria a anti-gestalt, que traz para frente do palco tudo o nossa percepção normalmente filtra; as redundâncias, o que é inconsciente, aquilo que se esconde ou foi escondido. É o impossível que se faz real, como queriam as milícias de 68, intoxicadas de Lacan.

Essa tendência já não é exclusividade da música eletrônica, e talvez nunca tenha sido. A obra mais digital sempre carregou a semente de sua derrota: os codeworks nada mais são do que uma extroversão do fundo sobre a figura, expondo suas entranhas.

Além disso, é inevitável citar a dupla JODI, com seus trabalhos baseados em uma plástica da general protection failure, e o grupo Windows Media Players, cujas apresentações de live images são compostas não por vídeo editado ao vivo, mas por projeções do sistema operado em tempo real. Propostas que buscam não a funcionalidade da máquina, sequer a estética deste funcionamento, mas a fricção entre ambas.

"Pós-digital" é arranjar um jeito de fotografar não o objeto, mas a objetiva. Usar o software como um saxofone que é usado como um agogô. Mas isso não basta, se não faz além de nos maravilhar pelo inusitado, se não passa de uma transposição do paradigma atual para um nível superior.

No fim das contas, essa nova-velha estética corre o risco de ser nada mais do que uma gramática do excesso e do escândalo, um modo barroco de tudo o que já temos aí. É nisso que o autor ameaça escorregar quando, ao clamar pelo mais-além da experimentação, sugere institucionalizar a falha, na criação de softwares específicos, na criação de uma didática do erro.

Saiba mais!

Clique aqui e leia o texto original de Cascone

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