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Foto: Divulgação
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Não se é americano impunemente. A Academia pode até tentar contornar a onda política irrefreável da última temporada elegendo como "melhor filme" aquele que é sem a menor dúvida o pior filme na História a já ter recebido o principal prêmio do Oscar - tentativas tão rasteiras de desviar o olhar do furacão não funcionam mais. A consciência de que na América ninguém mais pode ser vítima (nem mesmo os sobreviventes do Katrina, diria a ex-primeira-dama de lá) conduz a um extremo oposto que tem rendido belos filmes: ali são todos culpados. Não é outro o sentimento que move Steven Spielberg a construir o mundo cheio de imperdoáveis em "Munique", não é outro o sintoma percebido por David Cronenberg ao esmiuçar o estatuto da vontade de sangue patológica em "Marcas da Violência", é justamente a partir dessa constatação que George Clooney em "Boa Noite e Boa Sorte" tenta recuperar um momento perdido do país onde têm mais forças contestadoras e menos pasmaceira e incapacidade reativa. E mesmo naqueles filmes da safra oscarizável que optavam pela política em vias paralelas pareciam confrontar-se diretamente com a idéia de uma nação em frangalhos justamente por começar a recusar agora aqueles valores que um dia a fizeram a mais poderosa (econômica e moralmente) do mundo. "O Segredo de Brokeback Mountain" tenta lembrar que a "terra da liberdade", se ainda pretende usar a insígnia como slogan de campanha, não pode ignorar as diferenças entre seus indivíduos, nem muito menos pretender arquivar a homossexualidade na gaveta dos "pecados dos quais queremos distância" - não há melhor contraprova à afirmação bushista de que o casamento é exclusivamente entre um homem e uma mulher que o amor dos rancheiros no filme de Ang Lee. "Capote", por outro lado, ao opor um assassino frio a um escritor no limite da antiética e reforçar, inclusive textualmente, que as diferenças entre um e outro são pouquíssimas, coloca em evidencia um sistema de valores que se funda em perspectivas falsas, nem a pena de morte "resolve" a questão dos assassinatos, nem a investigação serve para "elucidar" suas motivações.
Mas existe aquele outro cinema, aquele feito também em Hollywood (como todos acima), mas que não prescinde do clima hollywoodiano, e portanto ousa menos em suas inclinações político-ideológicas. Ousar menos não significa ignorar. E em casos mais felizes, como no de "O Matador" (em cartaz no Estado desde sexta-feira), pode avançar até a aplicação de algumas estocadas certeiras. Para isso o diretor Richard Shepard parte de um ponto central bem específico: Pierce Brosnan e todas suas implicações artísticas. O cinema consegue, talvez como nenhum outro meio, construir ícones e colá-los permanentemente no imaginário do espectador. Posto que, no primeiro trabalho pós-James Bond, era de se esperar alguma permanência dessa figura de contornos tão definidos ou, no registro contrário, sua total negação. Shepard parte para a segunda opção, mas dá matizes mais diferenciadas àquilo que poderia ser uma simples operação de iconoclastia. O Julian Nobles, matador profissional, é grosso, estúpido, asqueroso, mas há algo no modo de lidar com as situações que o aproxima do gentil e delicado agente 007. Cabe à Brosnan (que aqui prova mais uma vez que é um ótimo ator) suavizar as diferenças entre esses dois tipos aparentemente avessos. Fica com o diretor a tarefa de aproximá-los no campo das idéias. Repetidas vezes o matador diz que seu serviço é apenas mais um dos serviços executados no mundo dos negócios, tão imprescindível, tão aceito e normalizado como qualquer contador de firma de advocacia. Seu trabalho não é sujo, pois já foi devidamente incorporado ao jogo das relações econômicas. Nobles, tanto quanto Bond, têm licença para matar.
O discurso de "O Matador" é claramente cômico, fundado no timing das piadas de seu protagonistas e no timing da própria direção, precisa nos cortes e nas modernosas transições de um espaço e tempo a outro (como toda história de espionagem, de Carmen Sandiego à "A Identidade Bourne", esta também viaja por vários países do mundo como se tudo estivesse à meia hora de distância). Para isso usa dois mandamentos clássicos da gênero. O primeiro, como diria um personagem de Woody Allen em 1989, é que a comédia é resultado da tragédia somada ao tempo. Pouco tempo atrás, quando um atirador misterioso assassinava inocentes em Washington D.C., fazer piada desse tipo de ação talvez fosse perigoso. A essa altura, já serve como o indício de que a normalização que Nobles percebe em seu "mercado de trabalho" também se estende àqueles que não fazem parte desse universo. O segundo é usar um contraponto moral à maluquice do protagonista, e fazer dessa diferença um manancial de gags. Para isso serve Danny Wright (mas bem poderia ser "right", "certinho"), o típico americano médio, trabalhador de uma grande corporação, temente à Deus e protetor da família. O encontro da América profunda com a sujeira conscientemente escondida debaixo do tapete provará que não há mais divisão possível entre essas duas instâncias.
Porque Richard Shepard, ao opor a face claramente boa de Wright com a maldade reinante de Nobles, diz que está tudo ao contrário. O matador está em franca crise psicológica, desequilibrado emocionalmente, sentindo o peso dos anos, falhando em serviços que antes tirava de letra. Têm síndrome do pânico, sinais de obsessão compulsiva, cheio de manias: é o modelo perfeito de homem contemporâneo, em dívida consigo mesmo e com o mundo à sua volta e incapaz de contornar o momento de paranóia (mas aqui, como a psicologia não se aplica diretamente como em "Máfia no Diva", um filme com o mesmo ponto de partida de "O Matador", é possível enxergar muito mais nuances na crise do protagonista do que a piada-em-si-mesma de um mafioso de coração mole no filme de Harold Ramis). Já Wright adere à vilania do mundo de Nobles com uma desfaçatez surpreendente, chegando até a ajudar o amigo de ocasião em dois trabalhinhos - é interessante notar como a figura do ator Greg Kinnear e seu rosto cândido têm servido justamente como o lugar onde se desmascara a pureza das intenções conservadoras, como acontece em "Sujou... Chegaram os Bears", filme de Richard Linklater recém-lançado em dvd, onde seu personagem, um pai zeloso, técnico do time de beisebol da escola, num momento de explosão quase espanca o filho na frente de um estádio inteiro só porque o menino não conseguira acertar uma bola.
Nobles e Wright são os lados opostos da mesma moeda que aceita o homicídio como mais um dado cultural. Ver humor nisso, mais que apenas vontade de transgressão, é a tentativa de alertar para o absurdo da naturalização deste componente social. Há em "O Matador" um ou outro deslize, a folclorização dos personagens estrangeiros, a construção distraída da mulher de Wright, o clima de redenção para o qual caminha o trecho final, mas nada que tire o brilho do filme. Ainda que tímido nas proposições, é muito direto ao perceber e retratar um clima cada vez mais crescente no mundo e nos Estados Unidos e que o cinema tem sido competente (às vezes até brilhante) em captar. "O Matador" está longe do brilhantismo - mas não dava para esperar coisa ruim de um filme cuja seqüência de créditos é acompanhada por "A Town Called Malice", do The Jam. Afinal de contas, é todo um país chamado malícia.
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