A mosca azul de Frei Betto




Geraldo Hasse


Frei Betto anda agora por algumas cidades brasileiras - entre elas Vitória no dia 11 de março - para autografar A Mosca Azul, livro em que rememora sua passagem pelo governo Lula nos anos 2003 e 2004. Ele foi um dos poucos que saltaram por conta própria do barco petista, desencantado com o rumo das coisas. Logo no primeiro parágrafo ele lamenta "a desdita de promessas esvoaçadas em mera retórica". No final do capítulo 30 confessa: "De repente dei-me conta de que navegávamos para oeste, quando todos os planos orientavam-nos para leste". Resultado: caiu fora "em busca de si mesmo".

Ao contrário do que se poderia esperar, porém, ele não cospe no prato em que comeu (foi coordenador de mobilização social do programa Fome Zero). Em 310 páginas, mantém-se fiel aos ideais que o levaram a optar pela vida religiosa e a militância política. O livro surpreende pela quantidade de metáforas, pespontos e volteios, mas aqui e ali vai costurando uma complexa unidade. No final, numa metáfora carregada de poesia, ele afirma que "a viagem não foi em vão, pois são sinuosas as veredas da história e a turba jamais olvida a fonte do alvorecer". Resta no ar um certo messianismo. Mas esperar o quê de um pregador católico?

Diz o informe da Editora Rocco que A Mosca Azul é "uma revisão honesta da ascensão do PT ao poder vinculada à recente história da esquerda no Brasil e no mundo". Na realidade, com uma narrativa na primeira pessoa, Frei Betto faz uma reavaliação de sua vida, toda ela consagrada a um projeto de redenção dos pobres e oprimidos. Não sou leitor tão assíduo dele, a ponto de fazer afirmações definitivas, mas A Mosca Azul é talvez o mais autobiográfico dos livros de Frei Betto, uma das figuras mais fascinantes da história brasileira contemporânea, com mais de 50 livros publicados.

Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 24 de agosto de 1944, dez anos antes do suicídio do presidente Vargas, ele fala bastante do pai, que morreu quatro meses antes da eleição de Lula, em 2002. Recorda o conservadorismo e o anticlericalismo paterno, expresso numa ameaça explícita, segundo a qual não toleraria ver "um filho de saias", ou seja, que fosse maricas ou padre. Betto respeitou o pai à sua moda: sem ser sacerdote, assumiu a vida religiosa, como frade dominicano, desses que andam à paisana; sem deixar de ser homem, jamais se casou. No livro, sem maiores detalhes, confessa que na juventude frequentou a "zona" de BH; insatisfeito, escolheu o claustro e fez do trabalho religioso uma missão.

Da militância cristã evoluiu para a participação política até ser preso e condenado a quatro anos de prisão por ajudar na luta armada contra a ditadura militar. Quando deixou a cadeia, foi aconselhado a ir embora para o exterior, mas exilou-se na Grande Vitória, onde morou por cinco anos. Aí conheceu, entre outros, o médico Vitor Buaiz, um dos fundadores do PT, ao lado de Lula. Eles estiveram juntos em João Monlevade, em janeiro de 1980, no encontro sindical em que pela primeira vez Lula falou em fundar um partido dos trabalhadores.

Fascinado pelos fatos que marcaram a história, Frei Betto mergulha nas circunstâncias que geraram o efeito Lula e culminaram na eleição do líder sindical a presidente da República em 2002. Comentando o carisma de Lula, não deixa barato: compara-o a Vargas e Prestes. Nessa viagem ao passado, fala com convicção do ideal construído pela nova esquerda após o golpe militar de 1964, da estratégia política voltada para a capacitação de novas lideranças no movimento popular, da estrela erguida pelo PT sustentada pelo sonho de uma sociedade mais justa.

Testemunha ocular e colaborador do movimento popular nascido no bojo da ditadura militar, Frei Betto faz uma reflexão profunda sobre os novos paradigmas da esquerda após o fim da União Soviética e o advento do Neoliberalismo. E conta episódios desconhecidos envolvendo personagens contemporâneos. Em 1979, por exemplo, foi chamado a São Paulo para uma reunião com Fernando Henrique Cardoso, Plínio de Arruda Sampaio e Almino Afonso. Queriam que ele entrasse no partido socialista que pretendiam fundar. Mineiramente, Betto refluiu. Muito tempo depois, foi avisado de que a reunião - realizada no apartamento duplex de um jornalista -- fora gravada pelos órgãos de segurança da ditadura agonizante.

Não, não vou resumir o livro, que tem grandes sacadas. Por exemplo: "O PT é filho bastardo da desconfiguração da geopolítica internacional", diz ele no capítulo 29, em que faz uma análise da crise do mundo moderno. Outra: "O PT vestiu a camisa do governo e despiu a camiseta dos movimentos populares". Por essas e outras, é um livro de leitura obrigatória para quem pretende não apenas compreender a sinuca dos petistas, mas situar-se depois que o barco de Lula sumiu no nevoeiro neoliberal e tomar um rumo nesse mundo coberto de miséria, violência e iniquidades. Sem respostas prontas, ele dá uma dica humanista-cristã: "O pólo de referência das esquerdas, em torno do qual precisam se unir, é somente um: o direito dos pobres".

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