Pra dizer a verdade, Rosinha não se entusiasma muito com o jeitão do Caipira. Tudo bem que trabalho é trabalho, mas um sujeito assim, com aquela cara de tatu da madrugada, os olhos meio mortiços, desajeitadão, todo tímido. Bem, a vida é dura pra todo mundo, consola-se a balzaca morena.
E além disso o fato é que vida de mulher de cabaré é assim mesmo. Então, quando Tia Chéri, a cafetina, chega à varanda do sobrado naquela noite de pouco movimento e grita meninas tem homem no salão, Rosinha é a primeira a descer. Anda muito necessitada de uns cobres e faz dias que não arruma um freguês.
O Caipira é sujeito caladão, de modo que com dois ou três minutos de pechincha o preço para uma noite juntos já está ajustado e o casal segue para o quarto.
Já vai o ato a meio caminho, quase consumado. O Caipira, caladão, e Rosinha fazendo o trivial simples, que afinal não é todo dia que profissional do sexo consegue fingir bem. Só que de repente, pra sua surpresa, o Caipira sopra bem no ouvido direito dela:
-Cê faz o que Zefinha faz?
Claro que Rosinha tem lá sua auto-estima, portanto, em vez de perguntar o que é, seu ego manda-a caprichar mais nos carinhos.
Depois de algum descanso, o Caipira quer mais. Quando a coisa vai a meio, novamente Rosinha se assusta e começa a se aborrecer com a repetição, sempre soprada baixinho, só que agora no ouvido esquerdo:
-Cê faz o que Zefinha faz?
Os quadris de Rosinha viram um ventilador, de fúria e de tesão misturados. Quase que o Caipira cai de cima dela, tamanhas a velocidade e a variedade de movimentos que Rosinha imprime ao próprio corpo. Logo, o Caipira, outra vez satisfeito, quer relaxar.
Depois de uma cervejinha, nem se passa meia hora e o Caipira apresenta armas novamente. Rosinha, àquelas alturas, já começa a gostar do desempenho daquele estranho sujeito. Pois fica só no começo, mesmo, pois a pergunta não demora a pintar, já pela terceira vez:
-Cê faz o que Zefinha faz?
Agora Rosinha lança mão de todo o seu estoque de carícias, truques e simulações, suspiros e gritos. A brincadeira esquenta de um jeito que ela mesma se surpreende.
Logo ambos caem num torpor, a musculatura solta. Rosinha pensa que vai mergulhar direto no sono, mas a curiosidade é maior.
-Meu bem - ronrona a morena, entre profissional e dengosa - me diga uma coisa...
-Que é?
-Que diabo é isso que essa tal de Zefinha tanto faz?
E o Caipira, com a cara mais cândida deste mundo:
-Fiado, uai.
x.x.x.x.x
P.S.: Esta crônica é dedicada ao amigo professor Rogério Maia.
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