Vida de Imigrante - A Mãe da Noiva




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Mais um cansativo dia na vida de Josefa, que trabalha numa loja de departamentos, na sessão de vestidos de festas. Roupas finas cheias de brilhos e delicados fru-frus nas cores e nos estilos da moda mais recente passam pelas mãos cheias de artrite de Josefa, e vão adornar alguma dondoca ou socialite que pode pagar por eles.

Josefa apenas sonha com um daqueles vestidos, que custam mais que seu salário quinzenal. Às vezes ousa experimentar um deles, quando a loja fecha e só o pessoal da arrumação fica ainda para deixar o setor em ordem, para que as vendedoras no dia seguinte tenham que se preocupar apenas em atingir suas metas de vendas.

A filha de Josefa vai se casar, e vai ter festa. O vestido da noiva foi doado por sua patroa, que casou a filha recentemente, e é o mesmo número. Mas a mãe da noiva não tem o que vestir, e um daqueles vestidos, o mais barato, o menos enfeitado, seria o maior rebu entre as amigas convidadas para o evento. Todas brasileiras, claro.

Josefa sabe que muita gente vai na loja comprar o vestido na sexta, usa no sábado ou domingo e devolve na segunda. Mas sendo funcionária antiga, Josefa quer mostrar as fotos do casamento para as colegas do setor. Não pegaria bem se apresentar em um vestido que foi devolvido na segunda-feira.

Josefa se desespera, o grande dia se aproxima, e a filha cobra uma decisão que ela não consegue tomar. Comprar o vestido em outra loja e devolvê-lo na segunda? Teria coragem de fazer isso, mas e o velho sonho de vestir um daqueles vestidos que passam por suas mãos todos os dias? Seria agora ou nunca, e ao que parecia, estava mesmo para nunca.

Chega a semana do casamento e a filha oferece uma solução. A patroa, que por acaso veste o mesmo número que Josefa, poderia gentilmente doar alguma roupa usada mas em boas condições, apropriada para a importância da ocasião. Com um profundo suspiro Josefa aceita, pois por mais que faça horas-extras, não consegue a verba-extra suficiente para comprar o vestido de seus sonhos.

Na sexta Josefa vai trabalhar, mais cansada do que nunca. O vestido que a filha lhe arranjou até que é bonito, mas ficou grande, vai ter que dar uns apertos, e absolutamente não combina com o estilo que ela sonhou usar. Em bom estado, mas muito simples, muito formal, mais para enterro que casamento.

No final do dia as colegas do serviço vêm se despedir, e trazem dois embrulhos.

Um é o presente para sua filha, um jogo de pratos. O outro é o vestido que Josefa andou namorando por tanto tempo, e já havia desistido de poder usar. "Para que você fique bem bonita no casamento da sua filha," elas disseram.