Vitória (ES), edição de 21 de março de 2006    
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Uma outra genealogia
Em "Lado Selvagem", a resposta à crueza crescente do mundo é o retorno transformado às suas bases mais sólidas



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  
O imigrante russo Mikhail aguarda numa estação de trem do interior da França a chegada do amante Djamel, de descendência árabe. Os dois se encontrarão com Stéphanie, uma transexual francesa que precisou voltar à cidade natal para cuidar da mãe enferma depois de 17 anos auto-exilada em Paris. À caminho da casa de Stéphanie, terceira ponta de um triângulo amoroso totalmente harmônico, Mikhail diz em inglês (o jovem russo não fala uma palavra de francês) que Djamel precisa mudar sua vida, pois ela não é normal - o rapaz vive de programas sexuais fortuitos nos banheiros públicos de um aeroporto parisiense. Djamel responde ao amante em francês, e ainda que o russo não entenda suas palavras, entende o sentimento que salta delas: "Quer que eu mude a minha vida? Por que ela não é normal?". Mikhail, Djamel e Stéphanie navegam por águas subterrâneas. Suas vidas se realizam num mundo inferior, mas esta já não é uma inferioridade moral. Os freqüentadores eventuais deste mundo de baixo são invariavelmente pessoas do mundo de cima, aqueles que levam uma vida burguesa e cidadã à luz do dia e que na calada da noite se rendem ao desejo de pagar para dividir a cama com Stéphanie ou uma cabine de banheiro com Djamel. Posto que se o mundo destes três personagens é inferior, o é apenas porque está literalmente embaixo de muitos outros.

Em "Lado Selvagem", o belo filme do francês Sébastien Lifshitz lançado recentemente em DVD, o que está em jogo é aquele momento em que este ambiente, antes mergulhado em sombras, é tomado pela luz do sol. É menos uma questão de ascensão (afinal, ainda permanece impensável na sociedade atual que personagens marginais dividam o mesmo espaço com aqueles de vida estabelecida). O que há aqui é transcendência: não negar a existência subterrânea, pelo contrário, aprender a enxergar nela seus valores geralmente ignorados; nem rechaçar a existência estabelecida, mas sim recuperar as estruturas esquecidas sobre as quais se fundam a experiência humana. Atravessar esses dois lados de um mesmo mundo cada vez mais cruel com aqueles que se dispõem a viver nele - atravessar, e fazer dessa viagem a tentativa de ir além. Não é outro o sentimento fundamental da trajetória destes três personagens que não a vontade de serem melhores (filhos, amigos, amantes, pessoas), e por conseqüência, tornar melhor o espaço que os cerca.

Stéphanie, Mikhail, Djamel: são todos estrangeiros. Não apenas por terem vindo de outros países, como no caso dos dois rapazes, mas por estarem distantes de suas raízes e plantados em terrenos novos e estranhos, com os quais devem aprender a lidar. Stéphanie é a expressão máxima desse estrangeirismo: menina nascida num corpo de menino, faz conviver no mesmo corpo o exterior e o interior, pênis e seios, a existência feminina que ainda guarda um traço de masculinidade. O exílio que os três se impõem revela uma certa necessidade de fuga do seio em que foram gerados, mas nenhuma dessas necessidades aparece bem explicitada. Stéphanie é a que tem o motivo mais claro, a incompatibilidade de sua opção em assumir a feminilidade chocava-se diretamente com os valores de uma cidade (e uma mentalidade) interiorana. Mikhail e Djamel se esquivam do contato com a família, o árabe vive no prédio em frente à sua mãe e seu irmão, observa-os à distância mas nega o contato direto, e o russo titubeia em ligar para a mãe, e quando o faz deixa transparecer o incômodo e a irresolução de sua partida de casa. Estrangeiros, desenraizados, os três se entregam a uma relação sem barreiras. Vivem juntos, cuidam um do outro, trocam carinhos, apoiam-se. Reconhecem que já não podem manter uma relação com seus passados, o abandono de suas raízes parece irreversível, e isso os impele a trabalhar pela criação de novas bases, e ter a chance de viver com elas a mesma intensidade de emoções.

Esta disposição, apenas subentendida inicialmente, toma forma a partir do momento em que Stéphanie precisa voltar à casa para cuidar de sua mãe, e leva junto seus dois companheiros. O último laço com sua história está se desfazendo, sua mãe está a poucos meses da morte, e o retorno a esta condição que abandonara ainda adolescente, a de ser filha de alguém, de fazer parte de uma família, mostrará o caminho a ser seguido tão logo este laço se extinga definitivamente. Mergulhados num mundo de mercantilização das emoções (cujo sinal mais evidente é o comércio do corpo, a prostituição à qual estão submetidos Stéphanie e Djamel, e que o garçom Mikhail questiona na conversa a que nos referimos no primeiro parágrafo), e agora diante do canto derradeiro de um momento em que as emoções não se vendiam nem eram compradas, acompanhar a morte de uma família é também acompanhar o nascimento de uma outra. Os laços afetivos são tão fundamentais quanto a própria vida, e acompanhar a derrocada deste valor não significa sucumbir junto com ele. Vem daí a resposta à pergunta retórica que Djamel fizera à Mikhail no começo. Os três parecem condenados a continuar peças da engrenagem subterrânea, vivendo diariamente as conseqüências da impossibilidade de escapar da crueldade de um mundo em crise, e a reação possível é fazer este lado selvagem da vida funcionar a seu favor, adaptando-se às novas regras do jogo e fazendo delas a chance de estreitar os laços criados entre si.

Num momento-chave de "Lado Selvagem", Stéphanie encontra-se num bar com um cliente potencial, mas o sujeito não quer transar com ela, quer apenas observá-la com outro homem qualquer, e paga por isso. Os dois saem pela rua à procura de um parceiro, e Stéphanie coincidentemente encontra Mikhail. O cliente não sabe que os dois se conhecem, que são amantes, que dividem a vida, nem eles deixam isso transparecer. Obedecem as ordens do sujeito, fazem amor nas posições determinadas por ele. Quando chegam próximos ao orgasmo, o sujeito sai. Restam os dois, na cama, totalmente enamorados. Chegam juntos ao êxtase, dão-se as mãos, selam um destino. Se a mercantilização do corpo é um fato, se estarão fadados a funcionar dentro de um regime que não valoriza suas existências, mas que ao mesmo é o que as financia, é preciso fazer existir nisso a possibilidade de uma ligação emocional. Djamel, Mikhail e Stéphanie (respectivamente Yasmine Belmadi, Edouard Nikitine e Stéphanie Michelini, entregues de corpo e alma) lutam pela normalização de suas novas condições. Formam uma família, resgatam como valor aquilo que o mundo parece destituir de sua função. Sendo uma conjunção totalmente estranha de tipos, são devotos da instituição mais básica da existência humana. "Lado Selvagem" faz porta-vozes dos valores perdidos aqueles que aparentemente são os que mais atentam contra eles (transexuais, homossexuais, prostituídos, ilegais). Não é bem uma questão de inversão de papéis. É apenas a reafirmação de que, mesmo em outras bases, segue sendo o amor a maior resposta aos tempos de cólera, e qualquer um que se agarre nele com a verdade e a inteireza destes três personagens pode ter a chance de, mesmo num caminho de trevas, ser tomado pela energia da luz do sol, brilhante, terna, e incrivelmente transformadora.

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