O pobretariado segº Frei Betto




Geraldo Hasse


Muito estimulante a leitura d'A Mosca Azul, último livro de Frei Betto. Ele o escreveu para explicar/justificar sua passagem pelo governo Lula no período 2003/2004, mas foi muito além da conta: acabou dando um verdadeiro cursinho (de história, filosofia, sociologia, política) em que apresenta uma série de raciocínios bastante lúcidos sobre os rumos da esquerda, o papel do PT e o futuro do socialismo, seja isso lá o que for.

Taí o livro mais contundente de um ano que mal começa e muito promete. Frei Betto escreve com tal clareza e sinceridade que é impossível não ler até o fim. Também é difícil dizer o que é melhor, se a análise dos equívocos da esquerda ou a exposição das enganações da direita, mas não há dúvida de que estamos diante de uma obra relevante para a história da pensamento brasileiro.

Surpreende-me, porém, verificar que até agora a mídia quase não falou do livro. Por que não analisar/resenhar uma obra tão atual e engajada, que analisa a realidade contemporânea como nenhum outro autor brasileiro fez nos últimos anos? Talvez o pessoal não esteja com tempo para ler, preocupado com o início da campanha eleitoral. Não sabem o que estão perdendo.

Betto é um dos melhores escritores brasileiros. Seu texto é muito conciso. Nem por ser missionário deixa de ser criativo. Brincalhão às vezes, solta alguns trocadilhos de tirar o chapéu. Com "tudo que é sólido desmancha no bar", ele brinca com a frase de Karl Marx sobre o que acontece nos períodos de crise aguda em que tudo que é sólido parece se desmanchar no ar...

Há também confissões memoráveis. Ele diz que escrever é sua forma de driblar a própria loucura. Também admite que algumas vezes tem vontade de chutar o balde e cair na contemplação dos mistérios da vida e da morte. Mas não desiste. Uma das coisas que o incentiva a se manter na luta é a memória do que passou na prisão, resistindo à tortura.

Embora tenha se decepcionado com a maior parte do governo do PT, reconhece que tem pela causa social a mesma preocupação de um pai pelo filho deficiente ou drogado: um amor incondicional, eivado de sofrimento. É o amor inspirado na lição de Cristo. Ele também conta como principais referências Gandhi e Guevara, que se dedicaram à libertação dos oprimidos, cada um a seu modo.

Os pobres são o alvo de sua militância. Betto os coloca numa nova categoria - o pobretariado, abaixo do proletariado. Para entender essa classificação, é preciso viajar com Betto pelos meandros da sociedade de consumo, da publicidade, do neoliberalismo e da globalização.

São extremamente instrutivos os capítulos em que ele analisa, comenta e critica o comportamento dos ricos, da burguesia, dos intelectuais, da classe média e também dos pobres. Leitor dos clássicos gregos e estudioso de Maquiavel, Betto faz páginas brilhantes sobre o exercício do poder em geral e do poder no governo petista. Apesar de tudo, continua confiando na possibilidade de que, num segundo mandato, Lula penda mais para a esquerda do que para a direita, resgatando mais um pouco das carências da maior parte da população - o pobretariado.

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