Questão de Direito - Previdência para 'dona de casa'




Luís Eduardo Nogueira Moreira


O Senado Federal acaba de aprovar um projeto de lei que cria uma aposentadoria para a dona de casa, e trata a matéria como se fosse um grande avanço social. Mas, longe de ser um grande avanço, a Previdência é uma grande enganação, para a grande maioria dos empregados. A Previdência obrigatória só existe por causa dos irresponsáveis e só beneficia a estes e ao Estado. O cidadão que tem um mínimo de cautela jamais irá precisar da Previdência Social.

A verdade é que o cidadão médio tem o péssimo hábito de gastar tudo que recebe, sem se preocupar com o futuro. Outros muitos gastam mais do que recebem e uns poucos gastam menos do que recebem. Os que são previdentes, naturalmente, sofrem por causa dos irresponsáveis. Claro, existe também uma parcela da população que é tão miserável que não pode fazer nada mais do que tentar sobreviver. Mas esses devem ser tratados a parte, e é para eles que deveria servir a idéia de solidariedade.

O que causa muita admiração é, por exemplo, a fixação que o homem médio tem por aparelhos praticamente inúteis, que têm como única utilidade dar um prazer efêmero e temporário. Por exemplo, a moda de 2006, as televisões de 42 polegadas. A única utilidade desse aparelho de R$ 8.000,00 (ou mais) é conceder um patético status para o proprietário e algum prazer momentâneo. Para muitos, isso é tão ou mais importante que a própria segurança.

Não por acaso, a dita classe média é apaixonada por esses bens. Existem multidões capazes de criar uma dívida de 18 ou 24 meses para possuir um aparelho desses.

Outro exemplo é a fixação por automóveis. O que justifica pagar mais de R$ 100.000,00 por um veículo que faz exatamente a mesma coisa que outro mais simples de R$ 20.000,00? O que leva um cidadão a ficar cinco anos pagando por um bem que só lhe traz despesa e algum status social? Francamente, é difícil compreender. A única utilidade desses bens, chamados voluptuários, está no prazer proporcionado - e para muitos isso é a própria vida. Mas o carro da moda de hoje é a velharia de amanhã. O tempo passa, o bem perde valor e ainda gera mais despesas.

Essa fixação no consumo de tais bens faz com que o cidadão crie dívidas, ao invés de cultivar o hábito de poupar. O cidadão gasta mais do que tem, faz a despesa antes de ter o dinheiro - comprar a prazo é exatamente isso - e pouco se importa com o futuro.

Se este comportamento fosse um fato isolado, não seria um grande problema social. Mas este comportamento é a regra, abertamente estimulado por dezenas de milhares de propagandas. Ficar devendo é regra, poupar é exceção. E como é a minoria que poupa, o problema ficou importante para a sociedade.

Ora, se a maioria das pessoas cultiva dívidas para adquirir bens que dão um status provisório, é óbvio que a maioria chegará à velhice sem um tostão furado e com um monte de bens sem valor em casa. E se essa é a situação da maioria, é evidente que o problema é social.

Exatamente por isso existe a Previdência dita oficial, que nada mais é do que uma poupança compulsória com uma péssima rentabilidade. O trabalhador em geral é obrigado a poupar entre 8 e 20% de seus rendimentos compulsoriamente. Deveria ser um hábito voluntário, mas o Estado notou que seus cidadãos são, em sua maioria, incapazes de gerir o próprio futuro e criou uma obrigação. Eis aí o motivo da Previdência Social.

Mas a inteligência do Estado não está em criar a Previdência; tal criação foi imposta pela necessidade. A grande jogada está em convencer o cidadão que a Previdência é uma instituição que beneficia o cidadão, quando, na verdade, ela é um castigo para o sujeito diligente. O exemplo da nova aposentadoria aprovada pelo Senado é emblemático.

A regra aprovada pelo Senado (que pode ser alterada ou rejeitada pela Câmara dos Deputados, ou vetada pelo presidente) diz que a aposentadoria só será devida após 12 anos de contribuição, e que a contribuição será de 11% do salário mínimo por mês.

Vamos supor que uma determinada dona de casa resolva se aposentar, e que comece a contribuir. Se esta dona de casa contribuir com 11% do salário mínimo (hoje em R$ 350,00) estará entregando para a Previdência R$ 38,50 por mês. Mantendo os valores fixos, essa senhora poderá, ao final de 12 anos, aposentar-se, recebendo os mesmos R$ 350,00.

Se esta mesma dona de casa depositar os mesmos R$ 38,50 por mês em uma conta de poupança terá, ao final de 12 anos (considerando os juros compostos de 0,5% ao mês), R$ 8.012,22 de saldo, e uma renda de R$ 40,06 ao mês.

O valor da renda é bem menor, mas existe uma particularidade: o saldo da poupança é da dona de casa, enquanto o saldo da contribuição previdenciária fica para o Estado. Agora, se esta mesma dona de casa conseguir alguma aplicação com uma rentabilidade maior, digamos, de 1% ao mês (o que é perfeitamente plausível pelas taxas atuais), a cidadã terá ao final de 12 anos um saldo de R$ 12.124,13 e uma renda mensal de R$ 121,24.

Se essa mesma pessoa conseguir uma rentabilidade de 1,65% ao mês, terá ao final dos 12 anos um saldo de R$ 21.895,50 e uma rentabilidade de R$ 361,28 por mês. É uma rentabilidade alta para um investimento pequeno, que dificilmente seria alcançada. Mas pensando nos montantes arrecadados pela Previdência, é uma rentabilidade perfeitamente plausível, até um pouco modesta para os padrões de hoje.

De tudo isso, o importante é manter em mente que, na Previdência oficial, o "saldo da conta" é "confiscado" pelo Estado. É um dinheiro que a Previdência arrecada e não devolve mais. Seria possível responder dizendo: "mas a Previdência não é só aposentadoria". Sim, é verdade, a Previdência tem outros benefícios (auxílio doença, maternidade etc), mas até agora só falei dos recursos pagos pelo cidadão, enquanto pessoa física. A Previdência tem uma série de outros recursos (receita de loterias, contribuição dos empregadores, participação do governo) que não foram computados nos cálculos acima. Essa receita "extra" é (ou deveria ser) mais do que suficiente para pagar os demais benefícios.

Ou seja, a Previdência oficial não é uma benese para o cidadão diligente. Pode até ser útil para a sociedade, mas para o cidadão que cuida bem do seu dinheiro, paga um seguro de saúde e pensa um pouco no futuro, a Previdência é um castigo, um confisco que cai sobre seu suado dinheiro.

E para a dona de casa? Se puder, cuide do seu próprio dinheiro que vai ganhar muito mais. A história mostra que o Estado sempre foi gerido por péssimos administradores, que só cuidam do próprio bolso.

E-mail do autor: luiseduardonog@hotmail.com