O ribeirinho e pescador Bastchão Bedurri, nascido Sebastião da Beira do Rio mas Bedurri tornado por conta da incrível capacidade aglutinatória da variante falada pelo povo que vive junto ao Rio Doce, continua mantendo, anos a fio, o hábito de acordar o Sol.
Assim, é no seu pesqueiro preferido, em algum lugar entre o Espírito Santo e Minas Gerais, que vamos encontrá-lo nessa manhã de quase-outono. Já deu algumas tarrafadas, colocou seus anzóis na água e vistoriou as armadilhas - gaiolas e coadores -, de modo que em seu saco de estopa já se avolumam alguns piaus, meia-dúzia de cascudos e mesmo duas lagostas de bom tamanho.
Um ruído de remos anuncia a chegada de Tõim Cabelo, jovem pescador que, como tantas pessoas da região, costuma procurar o velho ribeirinho quando precisa resolver alguma coisa que sua cabeça não dá conta de equacionar sozinha.
-Ó, Bedurri.
-Ooó.
Bedurri recolhe a ponta da espia que o amigo lança pra ele, dá um nó de marinheiro na cabeça de um toco de aroeira bem na beirinha d´água, e logo Cabelo salta de seu caíque e vem sentar-se junto ao velho pescador que já correu mundo, viu e leu muita coisa, ensinou em grandes escolas, depois recolheu-se a seu sítio à beira-rio, onde vive com modéstia e paz, falando pouco e sem usar palavras difíceis.
De olhos e ouvidos no passar do rio, Bedurri espera que seu amigo inicie a conversa, o que leva algum tempo, conforme é do jeito dos homens do interior.
Passados alguns minutos, Tõim Cabelo começa a relatar seu drama. A mulher é independente demais pro jeito dele, decide coisas sem consultá-lo, e agora deu de falar mal de homem com uma freqüência que aquele simplório camponês não encontra facilidade de encaixar. Mas Tõim gosta demais dela, só por isso ainda não sumiu no mundo, vai explicando a Bedurri, que finge não ver as lágrimas que rolam pelo rosto do amigo.
-As mulheres, meu amigo - diz finalmente Bedurri -, passaram milhares de anos numa condição de muita dureza, muito desrespeito, muita humilhação. E agora estão se libertando disso. E nesse processo estão cometendo muitos erros. Só que esses erros não são maiores nem menores que aqueles que nós cometemos contra elas durante tanto tempo. Então, meu amigo Cabelo, só tem um jeito de não perdermos nossas companheiras: é fazer o possível para compreender isso, com sinceridade e também com suave firmeza para conter os excessos e flexibilidade para aceitar o que é novo. As mulheres estão aprendendo a ser livres, e qualquer pessoa, de qualquer sexo, que busque a liberdade, corre o risco de errar muito e ter de aprender com seus erros.
Tõim Cabelo está muito triste. Sentado na margem do rio, os pés dentro d´água, masca um capim e sua expressão pouco a pouco vai se aliviando, à medida que aquelas palavras tão novas vão ecoando em sua consciência. Não sabe se vai dar conta de seguir os conselhos do amigo Bedurri, mas pelo menos sente que algo começa a se desemaranhar dentro de seus sentimentos.
Bedurri faz uma pausa, ajeita a isca de um dos anzóis, gira a linha com a chumbada por sobre a cabeça e a arremessa forte, lá no meio da correnteza. Depôs de enxugar as mãos na fralda da camisa e ajeitar o chapéu, o velho pescador volta a falar:
-Converse com ela, meu amigo, fale da dor que isso lhe causa, mas só quando estiver calmo. De qualquer maneira, é sempre bom a gente lembrar que ninguém pertence a ninguém, que toda pessoa merece respeito, e que às vezes as diferenças no jeito de ser são grandes demais e fica difícil viver juntos. Essa é uma decisão que só você pode tomar, sabendo que tudo tem um preço. Tem muita gente por aí que resolveu desembestar no mundo, viu que tinha errado, quis voltar e não teve chance. Decisões importantes, meu amigo, a gente nunca deve tomar em momentos de raiva ou de nervosismo. Vamos pescar. O Sol acaba de nascer, tudo se renova. Peça um conselho ao Sol, como faziam nossos antepassados, assim como um filho fala ao Pai. À noite, peça à Lua um alívio pro seu coração, como se estivesse falando à Mãe. Quem sabe amanhã o coração do meu amigo não está mais sossegado?
Bedurri acompanha com os olhos o caíque de Tõim Cabelo, que agora se vai, rio abaixo, silencioso e agradecido, o remo batendo ritmado na beira do barco, como é de costume, e já quase desaparecendo por detrás de uma ilhota, a caminho de outro pesqueiro.
Certamente o jovem pescador vai ter muito em que pensar naquele dia.
Mais uma semente do Bem está plantada. E Bedurri, tendo fisgado mais um piau, também rema de retorno pra casa, onde Dona Neném o espera com o mesmo amor de mais de 40 anos. Naquela tarde, juntos vão refazer a cerca do jardim, com a mesma serenidade com que vêm construindo seu amor e com ele abastecendo filhos e netos.
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