Josefa, que ficamos conhecendo na última coluna, veio de GV - para os não-iniciados, Governador Valadares, nação independente inserida nas Minas Gerais, de onde vêm nove entre dez imigrantes brasileiros. Renato, o marido de Josefa veio primeiro, arranjou emprego, alugou apartamento, e voltou para buscar a mulher e a filha.
No crivo do temido serviço de imigração Renato foi retido e mandado de volta, pois havia extrapolado seu visto de turista. Os insensíveis tiranos das fronteiras não se preocupam em quebrar laços de família bem estabelecida. Josefa estava legal e foi admitida com a filha. "Mas, Josefa…" gaguejou Renato, desesperado.
"Nem mais nem menos, não é minha culpa se te mandam de volta". Atônito, Renato viu pela última vez Josefa e a filha acenando-lhe, enquanto os impiedosos oficiais o levavam para pegar o próximo vôo para o Brasil. "E eu voltei apenas para buscá-la…" soluçou o marido em mau inglês, mas os oficiais não se comoveram.
Embora Josefa tenha mostrado um inesperado espírito de independência se recusando a voltar com o marido, seu nome é um dependente de José, como também Josefina, Joseline, Josemary, Joselay. Temos até uma Joseane, que é a filha de José. De Paulo temos Paula, de Carlos temos Carla, de João temos Joana, e tantas outras incontáveis variações em torno de um nome masculino.
A lista é longa e nem necessito esticá-la, pois todos conhecem alguém chamado Alberto ou Alberta, Pedro ou Pedrina, Sebastião ou Sebastiana, Júlio ou Júlia, Juliana, Julieta. Sem falar nos também incontáveis júniors e filhos e netos, quando os filhos homens ganham o nome do pai ou avô. Raramente vemos uma filha herdar o nome da mãe.
Os grupos feministas não analisaram ainda a profunda significância da influência dos nomes masculinos nos nomes femininos mais comuns, para alimentar e manter nossa cultura machista. Essa regra tem apenas uma honrosa exceção. Maria é o único nome feminino que originou nomes masculinos - Mário, Mariano, e a longa variação de nomes duplos - José Maria, João Maria, Antonio Maria.
Essas lucubrações sobre o domínio masculino na sociedade não passam pela cabeça de Josefa, na alegria do casamento da filha, com seu vestido azul-profundo faiscando delicados arabescos de cristal sob os castiçais da igreja. A neta vai se chamar Renata, numa tardia homenagem ao falecido avô que nunca pôde voltar.
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