Vitória (ES), edição de 30 de janeiro de 2006    
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Funk-se!!!
A música ressuscitando os sentidos



Oscar Vasconcelos
Atualizado toda terça-feira, às 16 horas


Há semanas nada parece funcionar de acordo com minha vontade. A tecnologia dá passos largos para trás, sem pedir licença ou fazer menção de ir. É levantar os olhos e cair atropelado por mais uma locomotiva de erros voando baixo, mas ainda assim muito distante dos trilhos. Uma seqüência predadora de nocautes no primeiro assalto, eu levantando teimosamente e levando mais uma porrada. Insistia na loucura vã de que uma banda específica tinha o poder de curar todo e qualquer mal que me acometesse o espírito. Era a música ressuscitando os sentidos. Os desorientados sentidos... Claro que sob alguns olhares com um riso sutil e uma desconfiança natural. Louco ainda não era, mas poderia vir a ser. Por que não?

Minha alma é rock, e isso não é um fator limitador dentro do turbilhão de manifestações artísticas, no caso, sonoras que flutuam por aí e se mostram das mais diferentes maneiras.
Samba, bossa nova, jazz, blues, MPB de um modo geral, e as vertentes desses estilos, vivem intensamente de forma harmoniosa no meu universo. Na verdade são fundamentais para minha existência.

Tive uma experiência "musical" (acho que digo isso pelo fato de estar sendo executada num aparelho de som) única no último fim de semana. Um tanto contraditória também, pois o "cenário" era um lugar absolutamente calmo e tranqüilo, o evento era super "família" e no entanto...Ouvi horas e horas de funk, os mais diversos, embora o "batidão" pareça sempre ser o mesmo, as "letras" desfilavam uma poesia caótica, urgente, num tom agressivo, mas ainda assim conseguindo ser engraçado. Digo "engraçado" - como "Dona Gigi" e na seqüência a "Resposta Ao Marido" - por se tratarem de abordagens bizarras e extremas, sobre relacionamentos ou aspirações do cotidiano de vozes que querem ser ouvidas, mas nasceram abafadas, então precisam de um "escape" a qualquer preço. A simplicidade do funk permite isso. Pega-se uma base e fala-se o que vier à cabeça em cima. Eis outro ponto, o "que" é falado e "como" é falado é um retrato perfeito de tudo que falta para termos uma nação com um mínimo de dignidade. São pessoas que estão à margem de todos os planos governamentais, são o "filho feio", não falam português corretamente, não conjugam verbos, e muito menos se preocupam com concordâncias, aliás, eles não têm que concordar com nada mesmo. Têm que ir contra a maré o tempo todo, na luta pela sobrevivência - cada vez mais curta na maior parte dos casos - através de uma arte marginal. De certa maneira, através desses "manifestos", escreve-se e transmite-se oralmente a história, de uma época e de uma classe social específicas, e nas entrelinhas há um pedido por ajuda, por um mínimo de atenção, longe da intenção de despertar sentimentos baratos ou a "pena" alheia. Não sei se as pessoas que ouvem o funk e fazem parte de classes sociais que não vivenciam o que é descrito nas "letras" dessas "músicas", têm o cuidado de refletir sobre o protesto e a causa que é levantada ali, mas é indiscutível que a mensagem chega e fica, no mínimo, no subconsciente de cada um. O fato é que não existe beleza na miséria, e você também sabe disso.

Quanto às pessoas que me submeteram à situação que gerou essa rápida reflexão, eu não sei se elas têm noção do risco que correram... Praticamente roçaram um fósforo aceso, indo e vindo, no curto pavio de uma dinamite que só queria explodir. Mas no fim das contas acho que estou melhor agora do que antes e devo agradecê-las pela "experiência" e pelo fim de semana.

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