A matéria em destaque nesta edição é um retrato fiel da degradação social e ambiental causada pela monocultura do eucalipto. Estudos realizados por técnicos a serviço do Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul/Bahia (Cepedes) e de outras organizações da sociedade civil mostraram que "de 1970 a 1985 a Bahia perdeu 70% de suas matas nativas com a chegada das empresas de papel e celulose Suzano Bahia Sul, Aracruz, CAF Santa Bárbara Ltda. e Veracel".
Essas empresas terão que extinguir as plantações de eucalipto num raio de dez quilômetros a partir das zonas de amortecimento das unidades de conservação do sul da Bahia. A recomendação foi feita à Gerência do Ibama em Eunápolis pela Procuradoria da República na região.
Ivonete Gonçalves, da equipe executiva do Cepedes, informou que também tramita no Ministério Público Federal o processo administrativo de nº 1.14.001.000046/2001-67, que monitora o licenciamento de localização do plantio irregular de 45.000 hectares de eucalipto da Aracruz Celulose no extremo sul da Bahia.
Estudos recentes do Ministério do Meio Ambiente informam que o extremo sul da Bahia tem apenas 4% da mata atlântica original, em áreas de reserva.
Na região, mais da metade das terras agricultáveis estão nas mãos das empresas, enquanto cerca de 12 mil famílias vivem acampadas nas estradas. Resultado: a expulsão dos trabalhadores rurais, quilombolas, pequenos agricultores e índios do campo gerou um crescimento significativo das favelas, desagregação de grupos e famílias, violência e miséria.
Este é um quadro de degradação ambiental e social que se repete onde predomina a monocultura do eucalipto, como no Espírito Santo, onde a Aracruz Celulose se instalou primeiro.
A recomendação para a extinção dos eucaliptais do sul da Bahia, datada de 18 de novembro de 2005, é assinada pelas procuradoras da República Bartira de Araújo Góes e Fernanda Alves de Oliveira, de Ilhéus. As empresas de celulose devem ainda "elaborar um Plano de Recuperação de Área Degradada (Prad), logo após a retirada do eucalipto, de forma que o meio ambiente seja restaurado".
A luta do Cepedes contra a degradação provocada pelo eucalipto no sul da Bahia já dura quinze anos. O Cepedes, junto com outras entidades, vem denunciando as irregularidades cometidas pelas empresas de celulose na Bahia e no Espírito Santo.
Mas aqui, infelizmente, as poluidoras ainda dão as cartas, atuando impunemente contra comunidades pobres e indefesas. O que acontece aqui se diferencia muito pouco do que ocorre na Bahia. Lá, entre muitas irregularidades, estão os plantios de eucalipto no entorno das Unidades de Conservação (UCs), contrariando a determinação da Lei Federal nº 9.985, de 18 de julho de 2000, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Unidade de Conservação-SNUC, onde prevê a existência de zonas de amortecimento para o entorno dos parques. Estas zonas de amortecimento deverão ser utilizadas como corredores ecológicos que possam garantir a sobrevivência das espécies da fauna e flora local, manutenção e fortalecimento da biodiversidade.
Resta esperar que o exemplo do sul da Bahia se estenda a todas as regiões degradadas pelo deserto verde.
|